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Passageira de tantas viagens, amante das letras e das artes, poetisa, contista, crítica de filmes, mãe de dois filhos, mulher, dona de casa, motorista, aspirante de atleta, um pouco de tudo e um pouco de nada… Essa sou eu. Uma taurina com ascendente em gêmeos, brasileira, nascida em Fortaleza, criada em Brasília, moradora de Coppet, Suíça. Formada em Publicidade e Propaganda, especialista em Marketing, Mestre em História e Estética do Cinema pela Universidade de Lausanne e uma eterna apaixonada pelos desafios que a vida oferece. Visite meu blog AQUI.

 

Samba (2014)
publicado em 29/7/15

Título original: Samba
Origem: França
Direção: Eric Toledano, Olivier Nakache
Roteiro: Eric Toledano, Olivier Nakache, Delphine Coulin (livro)
Com: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izïa Higelin 

Uma comédia romântica, dramática e social, que aborda com leveza e seriedade um tema totalmente da atualidade: a situação dos imigrantes ilegais na França – os “sans papiers” –, numa situação “aplicável” certamente para todo o continente europeu.

O duo Eric Toledano e Olivier Nakache, responsável pelo estrondoso sucesso de 2011, Intocáveis, volta à cena em 2014, estrelando o mesmíssimo e carismático Omar Sy em mais uma crônica da sociedade francesa atual. Porém, sem o mesmo encanto do filme anterior.

Num tom talvez um pouco menos alegre do que o de Intocáveis, apesar da música (brasileira) tocada em alto volume mais de uma vez no filme, a dupla conseguiu tratar novamente de um tema sério e complexo de maneira leve e sem pieguices, porém um pouco estereotipada demais para o meu gosto, com ares de contos de fada. Os personagens são em sua essência todos bom caráter, charmosos, simpáticos, alguns meio malandros, outros mais ingênuos, mas em sua maioria, gente do bem.

A história vai girar, então, em torno de Samba (Omar Sy), um senegalês residente na França há dez anos, mas que ainda luta para conseguir sua “carte de séjour”, documento que lhe garantiria uma residência legal no país. Vive de bicos, trabalhando em pequenas empresas que contratam ilegais por salários de miséria, fazendo vista grossa à ausência de documentos. Praticamente tudo que ganha, manda para sua mãe no Senegal, levando assim uma vida bem franciscana. Acontece que, de vez em quando, a fiscalização bate nos estabelecimentos suspeitos e leva presos alguns dos ilegais. E é assim justamente que começa o filme.

Samba vai ser detido e, em seguida, julgado. No entanto, na prisão, os ilegais contam com o apoio de um grupo de voluntários que tentam defende-los. E é lá que ele vai conhecer Alice (Charlotte Gainsbourg, atriz queridinha da França, sempre com aquela cara de deprimida, sem um pingo de cor!), uma ex-workaholic, que pilota um lindo Mini pelas ruas de Paris, e que se recupera de uma crise depressiva (burn out) em função do excesso de trabalho.

Os dois vêm, portanto, de classes bem diferentes, com culturas diferentes e têm situações de vida muito distintas: ela, sofrendo pelo excesso de trabalho; ele, pela falta de trabalho. No entanto, os dois compartilham medos, solidões, anseios e uma vontade grande de mudar sua condição de vida. Desnecessário dizer o que vai acontecer, né?

Apesar de seu roteiro « mais ou menos » e de sua mise en scène sem novidades, Samba tem o mérito de trazer à tona um tema muito sério e totalmente da hora que merece ser exibido para ser, assim, assumido e discutido. O filme mostra uma França-torre-de-babel, com muitas raças e línguas diferentes tentando se entender e sobreviver. Não há emprego para todos. Mas tampouco há emprego para esses imigrantes em seus países de origem. Esse povo não vem para a França para ver a torre Eiffel nem para aprender francês in loco. Eles vêm por pura falta de escolha, já que a situação lá é muito pior. Deixam suas famílias, seus amigos, suas raízes e suas tradições para trás. São obrigados a assimilarem rapidamente novos costumes e hábitos. Muitas vezes são perseguidos, humilhados. Mas ainda assim, acham que vale a pena o sacrifício, pois o pouco que ganham aqui ainda é muito em suas terras de origem. Em solo europeu, não são gente, não têm documentos, não existem. Fazem, no entanto, um serviço que muitos europeus não querem fazer. E os governos, enquanto lhes convém, fingem que não os estão vendo. Na hora em que são pressionados, quer seja pela população – que também sofre com a crise financeira e com a consequente falta de emprego -, quer seja por alguém de oposição, reclamando sobre sua incompetência administrativa, fazem, então, uma “limpeza”, devolvendo alguns ilegais de volta para casa. Um “paliativo” infelizmente bem comum por estas bandas!

Samba fica assim entre filme realista e conto de fadas, sem o encanto de Intocáveis, deixando aquele gostinho de que o duo Toledano-Nakache poderia ter ido além…

PS. Interessante (?) notar a imagem dos brasileiros na França… a discutir!

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Um Fim de Semana em Paris (2013)
publicado em 23/4/15

Título original: Le Weekend
Origem: Inglaterra / França

Diretor: Roger Mitchell
Roteiro: Hanif Kureishi
Com: Lindsay Duncan, Jim Broadbent, Jeff Goldblum

O diretor do inesquecível Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) presenteia-nos mais uma vez com uma história romântica e deliciosa de assistir! A diferença é que agora os pombinhos não são assim tão jovens e o palco não é mais a Inglaterra de Hugh Grant.

Le Weekend conta a história de um casal de professores ingleses que decide passar um fim de semana em Paris para comemorar seus trinta anos de casados e, assim, tentar fazer renascer a relação. Meg (Lindsay Duncan) e Nick (Jim Broadbent) formam um casal comum de classe média britânica, parte de uma elite intelectual sem dinheiro que, após tantos anos juntos, acumulam rancores, dúvidas e, claro, algumas (muitas?) alegrias. Após tantos anos já não sabem mais se estão juntos por amor ou comodismo? Foram felizes? São felizes? Realizaram seus sonhos? Têm ainda algum sonho? O que aconteceu-lhes após a saída dos filhos ?

Narrado de maneira simples e clássica, sem flashbacks, flashforwards ou grandes elipses, Le Weekend é um filme divertido (ah, o afiado humor inglês!), sensível, que alterna momentos sérios e delicados com outros bem leves e despretensiosos.

Não há grandes novidades estilísticas nem temáticas. Mesmo assim, o filme agrada por seus lindos planos da cidade-luz (Torre Eiffel, Montmartre, Museu Rodin, etc.) e por seus diálogos inteligentes e realistas. Para quem está (ou já esteve) casado há muito tempo, não há como não se identificar com uma porção de situações vividas e discutidas pelo casal. Sem falar na questão da idade e do envelhecer, assunto aliás em voga no cinema – haja visto a quantidade de filmes recentes que tratam do tema – e que é aqui trabalhado com elegância e equilíbrio, sem se deixar cair no exagero.

A cena em que Nick dança sozinho de madrugada no quarto do hotel, “curtindo” sua solidão e seu medo de envelhecer, enquanto sua mulher dorme, ignorando solenemente seu ainda vivo apetite sexual, é emblemática dessa angústia causada pelo passar do tempo.   Ele de cueca, camiseta, meias e fone de ouvidos, ao som de um Bob Dylan que pergunta: “How does it feel to be without a home like a complete unknown. Like a rolling stone?” Excelente! Ou, ainda, quando ele assiste pela televisão ao filme de Godard – Bande à part (1964) – e que ele arrisca alguns passos da famosa dança no bar, relembrando com nostalgia seus tempos de “anarquista de esquerda”… Cena aliás reproduzida no final, numa linda homenagem ao mestre da Nouvelle Vague.

Há, no entanto, vez por outra, alguns estereótipos cristalizados em cenas-clichês que poderiam ter sido evitadas, como a de Nick forçando uma amizade com o filho adolescente de seu colega de faculdade, o bem sucedido americano Morgan (Jeff Goldblum), uma espécie de filósofo-pop, escritor de best-sellers, que o inglês reencontra por acaso nas ruas de Paris.

Por outro lado, podemos enxergar nesse reencontro uma reflexão interessante sobre os desdobramentos e as reviravoltas que a vida às vezes dá. Morgan, na época de faculdade, via Nick como seu mentor, um colega que tinha conhecimento superior ao seu e como alguém que lhe abriu as portas do mundo acadêmico e da vida adulta. Por uma “ironia do destino”, o ídolo-Nick ficou estagnado em sua carreira e em sua região, enquanto que o não-tão-brilhante Morgan enriqueceu, ganhou projeção internacional, tendo vários livros publicados. Uma espécie de espelho que faz o professor olhar para sua própria trajetória e se dar conta de seus fracassos, de suas não-conquistas e também de alguns pequenos sucessos.

Le Weekend é, na verdade, uma sucessão desses olhares para trás na busca de um enxergar lá na frente. Um belo exercício de análise das conquistas e derrotas do passado, com o intuito de aprendermos a valorizar o presente e, assim, conseguirmos enxergar esperança no futuro.

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Relatos Selvagens (2014)
publicado em 4/4/15

Título original: Relatos selvajes
Origem: Argentina / Espanha

Direção: Damián Szifrón
Roteiro: Damián Szifrón
Com: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Camila Franco, Diego Gentile, María Marull

Tenho visto, ultimamente, nas redes sociais comentários super positivos e bem entusiasmados sobre Relatos Selvagens, filme argentino produzido pelos irmãos Almodóvar, escrito e dirigido por Damián Szifrón, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2014 e candidato neste ano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Entendo o entusiasmo, já que o filme é 1) interessante 2) argentino e 3) politicamente incorreto. Sendo estes dois últimos itens, coisas da moda nesta nossa sociedade do espetáculo. Explico-me:

Curiosamente, em solo brasileiro, “ser argentino” pesa a favor do filme (afinal, não estamos falando de futebol!). Já faz alguns anos que os filmes argentinos tornaram-se queridinhos dos brasileiros. Fato, aliás, perfeitamente compreensível, se considerarmos a excelente qualidade do que vem sendo produzido por nossos hermanos argentinos. No entanto, acabou virando uma espécie de clichê para os cinéfilos de plantão, ou para os “entendidos” de arte em geral, falarem que filme argentino é muito bom. Vamos com calma aí. Em qualquer país, há filmes e filmes.

Um outro ponto que pesa a favor de Relatos Selvagens, ajudando-o a entrar na listinha dos queridinhos do público e da crítica, é seu lado “politicamente incorreto”, ou talvez, mais precisamente, seu lado “macabro”, violento, rebelde, que atrai muito mais hoje em dia. Isso porque depois de tanto se incutir na cabeça das pessoas a ideia de que tudo (exagero aqui!) que antes era visto como normal era, na verdade, politicamente incorreto, hoje, o que se vê, ao contrário, é uma total desvalorização do seguimento às regras e do bom comportamento. O bacana agora é ser “do mal” (mais um exagero!). O politicamente correto não só perdeu a graça, como perdeu seu lugar ao sol. O que se vende hoje como “legal” ou “cool” é quebrar regras, ser do contra, não respeitar às leis. Como se fazer as coisas certas e seguir regras fosse um mal. Talvez esteja na hora de encontrarmos um equilíbrio! Assim sendo, como reflexo deste período de extremos, filmes sobre bons sentimentos, com personagens de boa índole, não são mais tão valorizados. Entram na vala dos água-com-açúcar e perdem pontos com os “entendidos”. Mas isto é assunto para uma tese…

Não estou querendo dizer aqui que Relatos Selvagens seja ruim. De forma alguma. Achei o filme bom, bem feito e interessante. Os sketches escolhidos formam um todo coerente, tendo como fio condutor aquela raiva que vai se avolumando dentro do cidadão comum diante das injustiças do dia-a-dia e de sua impotência e incapacidade para vence-las. Todas as partes são filmadas de forma simples, objetiva, direta, vez por outra com planos tomados de ângulos bastante inusitados e acompanhadas de boa trilha musical. Sem falar no sketch de abertura – muito bom, à la Almodóvar – que me fez criar ainda mais expectativas com relação ao filme.

No entanto, tenho que dizer aqui que esperava bem mais de Relatos Selvagens. Não achei assim “nenhuma Brastemp”, principalmente, porque não achei original. Não é original nem na forma (composto por sketches), nem no conteúdo. Lembrei o tempo todo de Um dia de fúria (1993), excelente filme realizado por Joel Schumacher, com Michael Douglas e que trata justamente desta explosão de raiva contida, desse sentimento de vingança que ultrapassa o limite do aceitável e do racional e que leva a pessoa ao fundo do poço, a um caminho muitas vezes sem volta, difícil e amargo. O tempo todo, ao longo do filme, vinha-me à mente a imagem de Michael Douglas enfurecido, “vomitando” seus piores sentimentos e assustando a todos a sua volta, um personagem que é ao mesmo tempo vítima e algoz de uma sociedade injusta e hipócrita. Como se Damián Szifrón tivesse “repaginado” aquele filme, dividindo-o em partes, adaptando-o à realidade argentina e às diferentes situações da vida naquele país.

Para os que adoraram o filme, peço que me desculpem. Talvez eu tenha caído exatamente no “conto do filme argentino” que mencionei no início deste texto, criando, por isso, expectativas demasiadamente elevadas com relação a Relatos Selvagens. Sem falar nesta mania de cobrar originalidade de tudo e de todos. Mea culpa. Afinal, quem disse que tem que ser original para ser bom?

PS. Ainda não entendi o porquê de alguns críticos colocarem o filme na categoria “comédia”. Só se for humor negro, pois o filme é bem angustiante, tratando sempre de sentimentos ruins, em situações deprimentes, violentas e pesadas. Não consegui dar nenhuma risada.

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O GRANDE HOTEL BUDAPEST (2014)
publicado em 14/7/14

The Grand Budapest Hotel (2014)
Título original: The Grand Budapest Hotel

Origem: EUA / Alemanha
Diretor: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Stephan Zweig, Hugo Guiness
Com: Ralph Fiennes, Willem Dafoe, Tilda Swinton, F. Murray Abraham, Tony Revolori, Saoirse Ronan, Jude Law, Mathieu Amalric Léa Seydoux

Há algum tempo que Wes Anderson vem encantando cinéfilos do mundo inteiro com seu estilo particular, que mistura o surreal e o real de maneira tão criativa e inteligente.

Desde seu primeiro longa-metragem Rushmore (1998) até seu último e maior sucesso de bilheteria, Moonrise Kingdom (2012), o diretor texano vem incorporando a cada filme novas técnicas cinematográficas e consolidando, assim, seu estilo descontraído e leve de contar histórias.

Com cenários exóticos e artificiais, praticamente saídos de filmes de animação ou mesmo de livros de pop-up, travellings laterais, zooms apressados contrastados com planos fixos, além de cores fortes ou, ao contrário, bem desbotadas, Anderson parece conseguir, com sua poética, conduzir o espectador a refletir sobre temas sensíveis e sérios de maneira bem humorada e despretensiosa.

Quase sempre com um quê de nostalgia, trabalhando muito sobre o tema “família”, um certo ar retrô paira sobre sua obra, enaltecendo uma beleza qualquer perdida lá atrás. Mas que não nos impede de apreciar e analisar o presente. Ao contrário. E desta vez, em The Grand Budapest Hotel, ele ainda acrescentou a História (com H maiúsculo) à sua ficção, adicionando realidade ao seu mundo fantasioso, em que nem o céu é o limite.

O resultado é um filme absolutamente encantador, divertido, inteligente, original, com uma mistura genial de diversas técnicas cinematográficas.

Inspirado na obra do escritor austríaco Stephan Zweig, The Grand Budapest Hotel conta em flashback a história do concierge Monsieur Gustav H. (um Ralph Fiennes absolutamente espetacular) e de seu lobby-boy Zero Mustafa (o também excelente estreante Tony Revolori), um órfão, refugiado de guerra.

A trama se passa em um país fictício do leste europeu, Zubrowka, no fim dos anos 1930, época de ascensão do nazismo (aqui o SS foi substituído pelo ZZ), e tem como cenário principal o próprio Grand Budapest Hotel, um paraíso perdido no meio das montanhas geladas. É lá que Monsieur Gustav vive suas aventuras amorosas com damas “de certa idade”, oferecendo-lhes momentos de puro prazer, calor e alegria. Entre elas está a milionária Madame D, personagem octogenária de Tilda Swinton, que será assassinada logo no começo do filme, deixando-lhe de herança um quadro de grande valor, para desespero de sua família de urubus ávidos por dinheiro. Amedrontado pela reação dos familiares de sua amada e com o apoio total de seu fiel escudeiro Zero, ele decide roubar o quadro (que é seu) e escondê-lo no hotel.

A partir daí é dada a largada para uma história rocambolesca com traços hitchcockianos e, ainda com algumas pitadas de James Bond, como na fantástica sequência de perseguição de esqui, em que eles tentam alcançar o vilão-matador interpretado por Willem Dafoe. Um personagem frio, cruel, assustador, que quase não fala, mas age sem dó nem piedade.

O filme, aliás, reúne um elenco de primeira linha, em que, curiosamente, excelentes atores têm papéis pequenos, com poucas falas e poucas cenas, o grande show ficando mesmo a cargo de Ralph Fiennes com seu divertido, sensível, sofisticado e malandro de alma pura, Monsieur Gustav. Sua afeição pelo lobby-boy Zero é comovente e proporciona alguns momentos mais densos na história como os das duas sequências em que os guardas de fronteiras vêm checar os documentos dos passageiros no trem.

Com bom ritmo, boa trilha e excelente montagem, The Grand Budapest Hotel, representa um paraíso perdido no meio da guerra, um fiapo de esperança na raça humana, e mostra que, mesmo em um contexto de inimizades e de atrocidades, ainda é possível deixar florescer uma bela amizade, conservando a bondade no coração.

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YVES SAINT LAURENT (2013)
publicada em 3/5/14

Título original: Yves Saint Laurent
Origem: França

Diretor: Jalil Lespert
Roteiro: Jalil Lespert, Marie-Pierre Huster, Jacques Fieschi, Laurence Benaïm (livro)
Com: Pierre Niney, Guillaume Gallienne, Charlotte Le Bon, Laura Smet, Nikolai Kinski

Muito já se falou e já se escreveu sobre a vida e a obra do genial Yves Saint-Laurent. Mas a fonte parece ainda não ter se esgotado… Dono de um talento sem limites, o estilista franco-argelino (nasceu na Argélia, na época da possessão francesa) parece ainda inspirar muitos escritores e diretores, que insistem em esmiuçar e divulgar sua vida e sua carreira.

Pelo menos três documentários já foram feitos – Yves Saint Laurent, le temps retrouvé (2002), Yves Saint Laurent, tout terriblement (2009), L’amour fou (2010) -, alguns livros escritos e agora, em 2014, saem dois biopics sobre a vida do famoso estilista e designer, repetindo, aliás, um histórico duelo entre diretores que lançam simultaneamente obras semelhantes, coisa não incomum na história do cinema (Lembram-se dos recentes Coco Antes de Chanel e Coco Chanel & Igor Stravinsky, ambos lançados em 2009?).

E desta vez, a versão que saiu na frente foi a de Jalil Lespert, lançada recentemente no Brasil, que conta com o aval e “benção” de seu companheiro de vida e empresário, Pierre Bergé, que, aliás, liberou para o filme alguns modelos (vestidos) e desenhos originais, objetos pessoais, incluindo os óculos usados por YSL, além de ter aberto as portas da casa deles no Marrocos e da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent.

Baseado na biografia escrita por Laurence Benaïm em 2002 e estrelado pelos atores Pierre Niney (no papel de YSL) e Guillaume Gallienne (Pierre Bergé), ambos da Comédie Française (teatro estatal francês e único a ter uma trupe permanente), o filme não foi muito bem recebido pela “chatíssima” crítica francesa, que insistiu em dizer que ele não explora o brilhantismo do profissional que foi Saint Laurent, ainda dizendo que a direção de Lespert teria sido comum, tendo como resultado um filme “para televisão”.

Discordo enormemente dos que assim enxergaram o filme. Na minha visão, o filme de Lespert é justamente o que chamo de bem equilibrado, uma espécie de panorama da obra e vida de Saint Laurent, do tipo que nos abre janelas para um eventual aprofundamento. Ele nem explora só a vida pessoal do estilista – embora seja este de fato o fio condutor do filme -, nem se atém exclusivamente à sua vida profissional, seu brilhantismo ou sua carreira, sabendo, portanto, conciliar ambos os aspectos, incluindo ainda a questão política (Guerra da Argélia), o que dá ao filme mais profundidade e riqueza.

Com relação à direção “sem graça” observada pelos críticos franceses, é verdade que o filme não apresenta grandes inovações, sendo contado de forma clássica, em flash-back pela própria voz de Pierre Bergé. O que não diminui em nada a beleza do filme. Aliás, por falar em beleza, plasticamente também gostei muito de Yves Saint Laurent (o filme). As cores são bonitas, sóbrias, clássicas, os planos são bem pensados, equilibrados, elegantes, às vezes lembrando quadros bem pintados, e a música… ah, a música é lindíssima!

Tudo isso sem falar no ponto alto, ou altíssimo, do filme que são as interpretações sem falhas dos dois protagonistas. Pierre Niney, ator de apenas 24 anos, dá um verdadeiro show na pele do frágil, depressivo e tímido YSL. Ele parece um bibelô, pálido, esquálido, prestes a ser quebrado a qualquer instante. Figura que contrasta enormemente com a solidez de Pierre Bergé, também brilhantemente interpretado por Guillaume Gallienne, que soube passar com muita propriedade e sutileza as emoções daquele que foi o porto seguro, a âncora e o prumo de Saint Laurent.

Algumas cenas me marcaram bastante, entre elas a hora da separação, quando YSL sai de casa, batendo a porta depois de tê-lo xingado e dito coisas terríveis, e tudo o que Bergé/Gallienne faz é ficar de pé junto à parede, contendo sua emoção, com lábios cerrados, tremendo, olhos marejados… De arrepiar!

Sinceramente, não entendo o porquê de críticas tão ferrenhas a esse primeiro biopic de Yves Saint Laurent, já que, ao meu ver, cada diretor tem o direito (e quase o dever) de escolher que viés vai utilizar em seu filme, que aspectos vai querer explorar, o que vai ressaltar ou omitir. Não é este exatamente (e também) o trabalho de um diretor?

Vamos aguardar para ver como vai ser a recepção do Saint Laurent (2014), de Bertrand Bonnello, previsto para sair em outubro aqui na Europa. Mas, enquanto isso, aproveitemos a beleza do Yves Saint Laurent de Jalil Lespert.

 

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12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (2013)
publicada em 6/3/14

Título original: 12 Years a Slave
Origem: EUA / Inglaterra
Diretor: Steve McQueen
Roteiro: John Ridley, Solomon Northup (livro)
Com: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Paul Dano, Brad Pitt, Sarah Paulson

Preparem os lenços! 12 Anos de Escravidão, vencedor do Oscar de melhor filme deste ano, é de chorar. De chorar muito… Choro de revolta, de dor, de tristeza, de culpa e de vergonha de fazer parte de uma sociedade tão preconceituosa e ignorante.

E o pior é saber que a história aconteceu de verdade, que é real. Que outros homens e mulheres tiveram o mesmo destino e que tantos outros continuam até hoje a sofrer horrores de mesma sorte.

O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo próprio protagonista, depois de conseguir sua liberdade de volta.

A história se passa no norte dos Estados Unidos, no século 19, no período pré-guerra de Secessão, e conta a história de Solomon Northup, homem livre, negro, que ganhava sua vida como músico, sustentando sua família com dignidade e tendo o respeito dos homens brancos da região.

A família Northup levava uma vida feliz e digna no estado de Nova Iorque, até o dia em que Solomon cai numa cilada. Convidado para participar de uma turnê de duas semanas em Washington DC, ele é embriagado, raptado e vendido como escravo para fazendeiros do sul do país. Roubam-lhe todos os documentos, mudam-lhe a identidade e o violonista se torna Platt, escravo fugido da Georgia.

A partir daí veremos uma enxurrada de violências, de injustiças, de horrores por meio de planos longos, enquadrados por uma câmera estática que pacientemente vai nos mostrando, com um realismo inquietante, cenas de cortar o coração e de nos encher de revolta e vergonha. E Steven McQueen não nos poupa de nenhum detalhe. Ao contrário, mostra-nos, muitas vezes, em close mesmo, o rosto de dos personagens sendo torturados, ou das feridas indecentes que vão sendo abertas em seus corpos.

Ao contrário de Django Livre – que tratava do mesmo tema de escravidão e injustiças, apoiando-se na paródia e no humor – 12 Anos de Escravidão adota um tom mais sério, mais realístico, mais sisudo, o que faz a coisa toda ficar ainda mais pesada e mais dura de olhar. Os diálogos não são tão irreverentes nem irônicos quanto os do filme de Tarantino, mas são também profundos e denunciadores de uma sociedade doente.

Com relação à estrutura narrativa, o filme de McQueen é bem mais acadêmico e convencional, optando por flashbacks que se intercalam com as cenas do presente, para assim nos contar a história. Os planos são bonitos, bem estudados, equilibrados e, de certa maneira, clássicos. As transições entre as sequências são muitas vezes feitas por meio de elementos da natureza – campos de algodão, mangues, céu, lagos, barcos, etc. – o que não é lá tão moderno, mas que acabam por obter um resultado bem bonito e interessante.

A trilha assinada por Hans Zimmer é absolutamente fantástica e contribui muito para dar o tom de seriedade e de tragédia do filme.

Quanto ao jogo de cena dos atores, o destaque vai para Chiwetel Ejiofor no papel de Solomon Northup, e para a estreante Lupita Nyong’o, mulher linda que dá um show no papel da escrava preferida do Senhor Epps. Ambos são responsáveis por bons metros cúbicos de lágrimas derramados… Não por acaso os dois receberam indicações para os maiores prêmios do cinema, ele levando o Bafta de Melhor Ator e ela, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Drama) e do Oscar 2014 também na categoria Melhor Filme, 12 Anos de Escravidão é certamente uma obra de peso, com uma história forte e filmado de maneira a nos causar o desconforto necessário para assunto tão grave. Apenas duas razões pelas quais não daria a estatueta para o último rebento de McQueen:

  1. Ritmo – Entendo e concordo que 12 anos de escravidão para quem vivia em liberdade (ou para qualquer pessoa) devem ter demorado muito tempo mesmo para passar, e concordo igualmente que uma das maneiras de passar isso para os espectadores seja justamente o ritmo lento da narração, mas, ainda assim, acho que o filme poderia ter se desenvolvido de forma mais dinâmica, mais ágil. Tive a sensação, vez por outra, que a história enganchava, que enrolava, que as coisas poderiam ter sido ditas e resolvidas um pouco mais rápido.

  1. Final – A última sequência é extremamente escolar, tradicional, démodée e estraga o filme. Não, não precisávamos ver aquilo. A cena que antecede à última sequência era perfeita (e linda!) para encerrar essa história de dor e luta pela vida. Uma pena que McQueen tenha deixado passar essa!

Apesar dos dois pontos levantados acima, aconselho fortemente que vejam o filme. Talvez eles nem os incomodem tanto. Só não esqueçam de levar o lenço! Garanto que vão precisar!

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AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013)
publicado em 6/2/14

Título original: La Vie d’Adèle  
Origem: França
Diretor: Abdellatif Kechiche
Roteiro: Julie Maroh, Abdellatif Kechiche
Com: Léa Seydoux, Adèle  Exarchopoulos, Salim Kechiouche

De olho nos filmes de arte ou de autor, o assunto de hoje é o vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2013: Azul é a Cor Mais Quente.

Mas confesso que estou até agora tentando entender o porquê deste filme ter recebido o maior prêmio do cinema francês no ano que passou. Talvez, ao escrever, consiga ir decifrando junto com vocês este mistério.

O filme é longo demais, démaquillé demais, explícito demais e não tão profundo quanto deveria, deixando questões fundamentais de lado.

Baseado na BD* francesa Le Bleu est une Couleur Chaude, de Julie Maroh, o filme conta a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos) – uma menina comum da classe média francesa – desde sua adolescência, ainda frequentando o Lycée, até sua vida de adulta, como professora de ensino fundamental.  Neste percurso, por meio de elipses não muito bem marcadas, vamos vendo as transformações e descobertas da protagonista.

Da adolescente que atrai os meninos bonitinhos da escola, até a descoberta do amor verdadeiro na figura de Emma (Léa Seydoux) – uma moça de cabelos azuis, um pouco mais velha do que ela, estudante de Belas-Artes – Adèle vai, pouco a pouco, descobrindo sua sexualidade, e adentrando um mundo azul, bem representado no filme, por meio dos vários objetos azuis presentes em praticamente todas as cenas.

No entanto, nada é muito desenvolvido até o fim. Nada é aprofundado. Nunca sentimos que adentramos em sua alma verdadeiramente. Muitos assuntos são deixados em aberto. No início do filme, por exemplo, vemos sua dificuldade de assumir sua homossexualidade ao ser chamada de lésbica na porta da escola. Ela nega, mas mesmo assim continua se encontrando com Emma. Em seguida, já vemos as duas juntas, mantendo um relacionamento fixo, mas nunca mais a vemos naquele contexto escolar. Nunca mais a vemos tendo que enfrentar o preconceito dos colegas de sala. E ficamos sem saber como ela superou tudo aquilo.

Nessa fase adolescente, há também a sequência em que Adèle é apresentada aos pais de Emma, dois artistas, intelectuais, que aprovam a escolha da filha. Em seguida, vemos o mesmo acontecer na casa de Adèle. Num décor bem mais simples, os pais da menina, recebem Emma como a professora de filosofia da filha. É assim que Adèle resolve apresentar Emma.

Fica claro ali que os pais ignoram a homossexualidade da filha e que ela, Adèle, não tem coragem de assumir sua condição. Mas isso nunca é abertamente discutido. Ela nunca conversa com sua companheira sobre suas dúvidas, angústias ou sofrimentos. Os pais nunca questionam a filha, não acham estranho seu comportamento…

Nessas duas sequências, aliás, o contraste é enorme, e fica evidente a diferença social e cultural entre as duas meninas. No primeiro caso, o casal intelectual serve ostras e um excelente vinho para as duas. A conversa gira em torno de cursos universitários, caminhos profissionais, mas sempre com muito respeito pelas escolhas tomadas. No segundo caso, o casal de trabalhadores, oferece spaghetti à bolognesa, também acompanhado de vinho (afinal, estamos na França!). O ambiente é bem menos sofisticado e o discurso bem mais pragmático: é preciso trabalhar para ganhar dinheiro. E a arte nem sempre é capaz de assegurar o pão de cada dia.

De repente, damos um salto no tempo, e Adèle já terminou a escola e está morando com Emma. Ela agora é professora de crianças pequenas. Não vemos suas angústias, nem seus confrontos com o preconceito. Tudo acontece hors champ, tudo passa batido. No entanto, em uma briga entre as duas, Adèle confessa não ter tido coragem de contar na escola onde trabalha, que ela mora com uma mulher.

Percebemos, então, que o tempo passou e Adèle ainda não se sente totalmente segura de sua escolha, embora esteja convencida de que ame Emma. Ou, pelo menos, não conseguiu ainda juntar forças para enfrentar de cabeça erguida o preconceito da sociedade francesa. Adèle é, assim, uma pessoa dividida, que, na escola, assume um papel e, no mundo artístico de Emma, assume outro. Mas nós, do lado de cá da tela, só a vemos em um mundo ou em outro. Jamais no limbo… jamais penetramos seu mundo espiritual, jamais entramos em seu sofrimento.

Parece clara, então, a escolha do diretor pela exibição, pela exteriorização, deixando de lado a introspecção. Ou, ao contrário, a exibição para justamente não ter que tocar na ferida do drama interior.

As cenas de sexo – que são muitas – são explícitas, cruas, nuas, sendo bons exemplos disso. A sequência da primeira relação sexual é tão longa (7 minutos ou mais) que causa desconforto. É tudo tão claro, limpo e natural (sem nuances de luz), que chega a ser grotesco. Composta por muitos closes, que se intercalam com planos médios, vemos todas as partes dos corpos das atrizes. Aliás, o close é a grande ferramenta deste filme. Vemos suas peles como se estivéssemos com lupas diante de nossos olhos, vemos suas bocas, pernas, bumbuns, pescoços, tudo. Tudo está ali tão próximo de nós e por tanto tempo que incomoda.  Na sala de cinema em que estava, pude ouvir pessoas rindo depois de um certo tempo. Provavelmente incomodadas pelo excesso, pela crueza e pela proximidade das cenas, que de tão “reais” acabam por tornarem-se cômicas. E não acredito que seja porque se trata de um casal homossexual não. Um casal heterossexual provavelmente causaria o mesmo desconforto.

Mas a verdade é que Kechiche gosta mesmo de expor o corpo feminino de forma grotesca, sem maquiagens, sem sombras nem meias-luzes. Faz parte de sua poética. Em Vênus Negra (2010), lembro-me de ter tido essa mesma sensação de desconforto diante de algumas cenas de exibição corporal excessiva. Como estava assistindo ao filme em casa, não tive dúvida, peguei o controle remoto e acelerei… Desta vez não tive escolha!

Ainda dentro do modo “exibição” / “exteriorização”, Kechiche optou por trabalhar com atrizes não maquiadas e não penteadas. Deixou-as em seus modos naturais, sem disfarces, sem esconderijos, para que pudessem dar seu melhor, sem máscaras para as protegerem. O resultado foi bom, pois a atuação das duas é excelente. Aliás, o ponto alto do filme.

No entanto, Julie Maroh, a autora da BD e homossexual assumida, criticou a atuação das duas durante as cenas de sexo, argumentando que não sabe quem orientou as moças, mas que o diretor deveria ter escolhido atrizes lésbicas a fim de que as cenas fossem mais verossímeis. Segundo ela, tudo ficou tão falso e feio que beira o pornô.

Mas talvez tenha sido justamente esta opção pelo “exterior”, pela falta de máscara ou subterfúgios, que tenha dado à Azul é a Cor Mais Quente a Palma de Ouro. Para mim, ainda faltou algo. Faltou informação (e olha que o filme dura três horas), faltou sentimento e, sobretudo, faltou encanto.

*BD (bande dessinée), revista em quadrinhos, comics.

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GRAVIDADE (2013)
publicada em 3/2/14

Título original: Gravity
Origem: EUA
Diretor: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonas Cuarón
Com: Sandra Bullock, George Clooney

Ao perguntar a um amigo americano sua opinião sobre Gravidade, o último filme de Alfonso Cuarón, sua resposta foi curta e simples: “Wow!”

Em princípio, achei curioso seu comentário, mas, hoje, após assistir ao filme, entendo perfeitamente sua interjeição.

Gravidade é de fato um filme WOW!

Um filme que revoluciona a questão espacial, que tira-nos completamente do eixo. Não estamos mais na vertical, nem na horizontal… a câmara mexe o tempo todo, gira de um lado para o outro, de cima para baixo, de baixo para cima, deixa-nos meio zonzos… Os atores tampouco estão na posição em que estamos acostumados a vê-los. Estão de cabeça pra baixo, de lado, de costas, de frente… os objetos voam, flutuam, não têm um lugar certo. Tudo parece fora de órbita.

O uso exaustivo de closes, associado à técnica do 3D, aproxima-nos ainda mais dos personagens. Estamos grudados neles, estamos no espaço com Sandra Bullock e George Clooney. A sensação é quase de estarmos em um daqueles simuladores da Disney. Nosso coração bate forte, nossa respiração passa de ofegante a quase ausente numa fração de segundos. Tudo é intenso!

A trama em si, porém, é bem simples. A equipe composta pela doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) , Matt Kowalski (George Clooney) e Shariff (Phaldut Sharma), tem como missão consertar uma peça em pane na estação espacial norte-americana. Tudo parece caminhar (ou flutuar) bem, até que eles são avisados de que devem abortar a missão, em função de uma tempestade de escombros, provocada por um míssil russo que se chocou com um satélite. A calmaria e a paz da solidão do espaço são então substituídos pela agitação de uma catástrofe. Dra. Stone e Matt Kowalski ficam então perdidos, à deriva, soltos no espaço.  A partir daí tem-se início a uma luta frenética pela sobrevivência, numa montagem bem ritmada, capaz de prender-nos do início ao fim, mesmo com o elenco bem minimalista.

George Clooney e Sandra Bullock são os personagens principais e praticamente os únicos atores do filme. Fora uma ou outra voz (vindas via computador), o show é todo por conta deles. Nem Houston se faz tão presente nesta saga espacial norte-americana. E os dois conseguem segurar bem o filme. Sobretudo, Sandra Bullock, que leva, sozinha, uma boa parte de Gravidade.

Interessante notar que o filme não nos apresenta nunca o que está acontecendo do outro lado do mundo, ou melhor, do lado da Terra. Estamos o tempo todo no espaço, junto com os únicos-atores-principais. Cuarón optou, assim, pela simplicidade, dispensando flash-backsflash-fowards, grandes elipses ou qualquer outros figuras de narração. O filme todo se passa ali no espaço, seguindo a linearidade do tempo. Não temos, portanto, escolha, nem escapatória. Temos que viver a experiência com eles, temos que sofrer com eles, nossos corpos presos nas cadeiras de cinema, enquanto nossas mentes vagueiam pelo universo. Sem refresco!

Nossa visão é também constantemente interpelada pela beleza escandalosa do cenário. A terra está bem diante de nossos olhos, linda, colossal, assustadora, sublime! A 3D é muito bem usada, ajudando-nos a adentrar o universo sideral.  A sequência em que a Dra. Stone “dança” no espaço com um extintor de incêndios é uma homenagem explícita ao robô Wall-E, em sua dança espacial com EVA.

A audição também é convidada a participar da experiência, por meio de um trabalho de som irrepreensível. A alternância entre barulhos altíssimos e silêncios totais mexem com nossos sentimentos e com nosso cérebro que tenta se acostumar com as mudanças de paradigma que o filme propõe.

E por falar em quebras de paradigmas, vale ressaltar a participação da China no roteiro deste filme norte-americano. Estávamos tão acostumados a ver sempre a Rússia como grande concorrente dos EUA na corrida espacial – e ela continua lá, obviamente – mas agora, a grande potência China também se faz presente e tem papel fundamental no filme. Ela é o quesito apaziguador, quer seja por meio da figura de um buda no “console” da nave, ou ainda pela canção de ninar cantada via rádio…

Para não me alongar demais, e para não dizer que o filme beira à perfeição, a penúltima sequência de Gravidade é, ao meu ver, totalmente dispensável. Uma angústia desnecessária e exagerada.

Fora isso, Gravidade é sim um grande filme, além, de ser uma experiência sensorial de primeiro porte.

Sem dúvida, um forte concorrente ao Oscar de melhor fotografia e quiçá de melhor filme.

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BLUE JASMINE (2013)
publicada em 5/12/13

Título original: Blue Jasmine
Origem. EUA
Diretor: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Com: Cate Blanchett, Allec Baldwin, Sally Hawkins, Bobby Cannavale, Michael Stuhlbarg

Depois de alguns anos passeando pela Europa – Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia-Noite em Paris (2011), Para Roma com Amor (2012) – e adotando um estilo mais leve que de costume, eis que Woody Allen está de retorno a sua Nova Iorque natal e à radiografia social americana que sempre lhe foi tão característica.

Desta vez a trama de seu filme tem como pano de fundo a fraude financeira – numa referência quase explícita ao caso Madoff, ocorrido há alguns anos em NY – para, em seguida, explorar outras facetas deste mesmo tema: mentira social, pessoal, psicológica, etc. Pessoas que enganam os outros, que se enganam, que acreditam em suas mentiras ou que fingem acreditar…

Com um elenco de primeira grandeza e um roteiro super enxuto e preciso, o filme conta a história de Jasmine (Cate Blanchett), socialite nova-iorquina, quarentona, milionária, chique e linda, que, de um dia para o outro se vê na rua, sem dinheiro, sem seu marido milionário Hal (Alec Baldwin), com uma mão na frente outra atrás.  O governo lhe tomou cada vintém que tinha. Tudo o que lhe resta são suas malas Louis Vuitton, sua soberba, seus anti-depressivos e sua determinação em sair daquela situação de pobreza.

Para isso, ela vai buscar abrigo na casa de sua irmã Ginger (Sally Hawkins), que mora em São Francisco, e leva uma vida completamente diferente da sua. Ginger nunca teve marido rico, cria dois filhos sozinha, trabalhando como caixa de supermercado, mora em um apartamento pequeno sem nenhum requinte, e encontra prazer nas coisas simples da vida. Namora Chili (Bobby Cannavale), um brutamontes tatuado, por quem Jasmine tem uma automática antipatia.

O choque entre os dois mundos é enorme. E esse contraste se faz presente em cada detalhe do filme, desde o visual das duas irmãs – Jasmine, alta, loira e chique; e Ginger, baixinha, morena e vulgar -, até a forma de narração escolhida para a história, com seus inúmeros flashbacks que colocam lado a lado os dois universos tão díspares.

E é, aliás, por meio desses flashbacks que o diretor vai, pouco a pouco, revelando-nos a realidade do passado de Jasmine.

Woody Allen faz, com este seu último filme, um retorno ao estilo que lhe deu fama: tragicômico, intelectualizado, de humor amargo, com atores falando sozinhos, olhando direto para câmera como se estivessem em um palco de teatro. A diferença é que, desta vez, tudo ganha um ar mais leve, uma forma mais suave, mais acertada, mais madura. Num estilo talvez antes só visto em seu brilhante Match Point (2005).

E para completar, desta feita, Woody Allen tem um novo trunfo. E não é pequeno. Refiro-me aqui a Cate Blanchett. Uma atriz já consagrada, por certo, e que eleva a obra de Allen a um outro patamar. Sua atuação é absolutamente irretocável e brilhante, sendo a precisão de seu gestual e de seu olhar a responsável por grande parte do sucesso do filme.  Na pele da neurótica e depressiva Jasmine (ou Jeannette, seu verdadeiro nome), Blanchett é capaz de nos conduzir por estágios diversos de seus sentimentos, percorrendo seu labirinto de sofrimentos, angústias e delírios. Sempre com pitadas de um humor triste, amargo e melancólico, reflexo de alguém que não conseguiu enfim convencer-se de sua própria fantasiada felicidade.

Com Blue Jasmine, o bom e velho Woody Allen está de volta, desta vez mais maduro e menos complicado! Viva!

PS. Para os amantes da moda e da elegância, Cate Blanchett está imperdível! 

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TABU (2012)
publicada em 22/09/2013

Título original: Tabu
Origem: Portugal
Diretor: Miguel Gomes
Roteiro: Miguel Gomes, Mariana Ricardo
Com: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Isabel Muñoz Cardoso, Henrique Espírito Santo, Carlotto Cota

Um filme diferente, que surpreende positivamente!

O prólogo do filme, assim como sua primeira parte, podem assustar um pouco a audiência mais convencional, mais adepta ao cinema clássico hollywoodiano. No entanto, minha sugestão é que persistam, pois vale a pena. O filme é bem interessante, inovador e belo.

Dividido em três partes quase autônomas, mas que se complementam, o filme do diretor português Miguel Gomes vem fazendo sucesso mundo a fora. Já arrebatando vários prêmios importantes.

Tudo começa por um prólogo que narra uma espécie de lenda africana. O jogo de cena dos atores aqui é bem rígido, artificial, duro. E como toda boa lenda, é surreal. Nota-se logo que não se trata de um filme comum. Algumas cenas têm um quê de Jean Rouch, cineasta francês dos anos 50 que ficou conhecido por seus filmes antropológicos, rodados em tribos africanas. Ou ainda pelo que veio a se chamar de cinéma-vérité.

A primeira parte, chamada Paraíso Perdido, se passa na Lisboa de hoje e conta a história de Pilar (Teresa Madruga), uma ativista cinquentona, solteira, católica, que dedica sua vida às causas humanitárias, ajudando também os bem próximos, como sua vizinha D. Aurora (Laura Soveral). Uma senhora outrora “de posses”, já de idade, que mora em companhia de uma criada cabo-verdiana, a Santa (Isabel Muñoz Cardoso).

D. Aurora tem uma filha que mora no Canadá, mas que nunca aparece. A solitária senhora gasta o que resta de seu dinheiro no jogo. E parece já nem se dar mais conta da situação em que vive. Ela implica com Santa, dizendo à sua vizinha Pilar, que a africana faz feitiços contra ela.

Percebe-se bem nas figuras de D. Aurora e de Santa o contraste entre dois mundos, Europa e Africa, entre duas culturas, a branca e a negra, entre as duas religiões, católica e africana (insinua-se aqui práticas de “feitiçarias”), entre as duas classes sociais, entre colonizador e colonizado.

O clima que reina, porém, nessa primeira parte do filme é de nostalgia, solidão, melancolia. Falta vida, alegria, movimento. O ritmo da narração é bem lento e algumas falas também. As coisas vão acontecendo, mas parece que não saímos do lugar. Algumas cenas parecem até meio sem sentido ali dentro daquela história, como a da menina polonesa que deveria ficar na casa de Pilar.

Mas eis que Aurora fica doente e pede para Santa chamar um certo Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo). Pilar segue, então, em busca do misterioso homem e o traz para ver Aurora.

E é aí que vamos passar para a segunda parte do filme, quando, sentados em meio a uma floresta artificial de um shopping em Lisboa, esse Indiana Jones português vai nos contar uma história secreta do passado de D. Aurora, vivida em solo africano.

A segunda parte – um imenso flashback – se chama Paraíso. E a partir daqui o filme ganha novo ritmo, novos sons e a mesma cor (ainda o preto e branco).

O mais interessante desta segunda parte (ou terceira, se considerarmos o prólogo) é que não há diálogos. Na verdade, há sim, mas simplesmente não os ouvimos. Os atores mexem os lábios, mas não ouvimos o som de suas falas. Só ouvimos os ruídos das cenas e a narração na voz do velho Ventura que, puxando por sua memória, leva-nos de volta ao passado para vivermos junto com eles uma história de uma paixão proibida avassaladora.

A escolha de Miguel Torres, certamente, causa estranhamento no início, mas logo ganha ares de encantamento, já que parece tão apropriada a esta parte do filme, quando as súplicas de uma paixão verdadeira têm de ser caladas pela razão que norteia a realidade.

O fato de o filme ter sido todo rodado em preto e branco também contribui para acentuar o efeito de lembrança, de filme antigo, remetendo aos tempos do cinema mudo. Os planos são bonitos e bem contrastados, tendo o filme uma bela fotografia, sobretudo nesta segunda parte.

Tabu homenageia explicitamente o grande cineasta alemão Murnau, ele também autor de um Tabu (1931), filme igualmente dividido em duas partes, chamadas não por acaso de Paraíso e Paraíso Perdido, uma história de amor impossível entre nativos de Bora-Bora. Miguel Torres inverteu a ordem das partes (o Paraíso Perdido vindo antes do Paraíso) e ainda pegou emprestado de outro filme de Murnau, Aurora (1927), o nome de sua protagonista. Uma bela homenagem à história do cinema!

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Os Sabores do Palácio (2012)
publicada em 1/9/13

Título original: Les Saveurs du Palais
Origem: França
Diretor: Christian Vincent
Roteiro: Christian Vincent, Etienne Comar
Com: Catherine Frot, Jean d’Ormesson, Hippolyte Girardot, Arthur Dupont

Os Sabores do Palácio é  um filme absolutamente delicioso de se ver!

Estreado no velho continente em setembro do ano passado, o filme de Christian Vincent vem abrindo o apetite de muita gente aqui na Europa e provavelmente fará o mesmo em solo brasileiro.

O filme é baseado na vida e nas lembranças de Danièle Mazet-Delpeuch – por dois anos cozinheira particular do presidente François Miterrand – registradas no livro escrito por ela mesma, de título Mes Carnets de Cuisine – du Périgord é l’Élysée, publicado em 1997.

No filme – que mistura ficção e realidade – Danièle se chama Hortense Laborie, maravilhosamente interpretada por Catherine Frot. Uma mulher forte, determinada, talentosa, filha e neta de grandes cozinheiras especializadas na cozinha típica de Périgord, região localizada no sudoeste da França. E de um pai agricultor, dedicado à venda de produtos selecionados, de altíssima qualidade. Detalhe: essas informações não nos são apresentadas pelo filme, que pouco nos fala sobre sua vida pessoal e pregressa.

A história, contada por meio de uma série de flash-backs, começa inusitadamente na Antártica, com dois personagens jornalistas falando em inglês.  Nada de Palácio, nada de França e nada de cozinha.

Depois de alguns minutos de “será que estou no filme certo?”, somos finalmente apresentados a uma mulher solitária, de traços e atitudes fortes, única representante feminina em meio àquele grupo de homens de barbas mal feitas, confinados no frio da Antártica.

E é lá, então, que vamos descobrir finalmente que a cozinheira da missão é também aquela mesma mulher elegante e forte que foi  durante dois anos a cozinheira pessoal do presidente François Miterrand. Monsieur, le Président é interpretado ironicamente pelo escritor, filósofo e jornalista de direita Jean d’Ormesson. Aliás, uma atuação questionável, com pausas excessivas, e até mesmo com uma certa dificuldade de articulação das palavras.

Dali, somos transportados, então, para um universo mais quente e colorido, menos úmido, mas não tão menos masculino: para a região de Périgord, no sudoeste da França. De onde seguiremos – junto com a personagem principal – para o endereço do poder maior da França: o número 55 da rua Faubourg Saint-Honoré.  Para a cozinha onde Hortense vai conhecer de perto os sabores e dissabores do poder.

A partir daí o filme entra em um jogo constante de vai e vem, misturando cenas do presente gelado da Antártica com o passado quente do Eliseu. Contrastando as cores frias de hoje com as cores quentes de ontem. A simplicidade de uma base militar, com a sofisticação, a hierarquia e a complexidade da casa que abriga o poder maior da República Francesa.

Mas não se enganem, Os Sabores do Palácio não é um filme sobre política. Longe disso. Trata-se de um filme sobre o prazer da boa mesa, sobre a arte da culinária e sobre a forte ligação da França com sua gastronomia, que – com todos os seus rituais – reflete muito de seu jeito de ser, de pensar, de se comportar. Não é a toa que a gastronomia francesa recebeu em 2010 o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

É claro que, tendo a política como pano de fundo, o filme não poderia deixar de salpicar aqui e ali questões relacionadas à hierarquia do poder, retratando, assim, situações de inveja, competição e controle, tão características da guerra pelo comando (da cozinha) do Palácio.

Finalmente, Os Sabores do Palácio é um filme sobre uma paixão comum – a gastronomia – entre uma mulher simples, um homem poderoso e toda uma nação apreciadora da arte da boa mesa. Uma paixão capaz de transpor certas fronteiras, mas incapaz de muda-las totalmente de lugar. Um filme sobre a arte de encontrar na simplicidade o maior prazer da vida.

PS. As cenas dos pratos são de dar água na boca. Meu conselho é que, antes de ir ao cinema, vocês já façam uma reserva em um bom restaurante e cheguem preparados para engatar um delicioso jantar após o filme. Programa perfeito para  gourmands e gourmets de todas as idades!

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A ESPUMA DOS DIAS (2013)
publicada em 19/7/13

Título original: L’Ecume des jours
Origem: Bélgica / França
Diretor: Michel Gondry
Roteiro: Boris Vian, Luc Bossi
Com: Audrey Tautou, Roman Duris, Omar Sy, Gad Elmaleh

Literalmente fantástico, A Espuma dos Dias é um filme que faz as metáforas da vida ganharem forma, luz e cor!

O filme é uma adaptação do livro de mesmo título de Boris Vian, escrito em 1947, e transformado em clássico absoluto entre os lycéens franceses.

A ideia de se transpor o livro às telas já corria pela França, porém o desafio era grande em virtude do universo onírico e surreal da história escrita por Vian. Eis que a solução surgiu pelas mãos do não menos surreal diretor Michel Gondry, autor de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança (2004), O Besouro Verde (2011), The We and the I (2012), entre outros.

A história se passa na Paris de um passado indeterminado, com um cenário super retrô, repleto de invenções curiosas, com aquele ar de moderno-de-antigamente. Lá, vivem Colin (Roman Duris), um dandy que aprecia a boa música, a boa mesa e o dolce far niente; Nicolas (Omar Sy), seu cozinheiro, mentor e amigo; e Chick (Gad Elmaleh), um operário aficionado por Jean-Sol Bartre e seus ensinamentos existencialistas. A semelhança com Jean-Paul Sartre, obviamente, não é mera coincidência!

Chick é namorado de Alise (Aïssa Maïga), prima de Nicolas. Mas é, na verdade, muito mais apaixonado pela filosofia de Jean-Sol do que por sua namorada. O cozinheiro, por sua vez, é uma espécie de Don Juan, atraindo várias moças, entre elas a bela e rica Isis (Charlotte Lebon), com quem ele tem um relacionamento muito mais físico do que sentimental. Colin é, assim, o único “desapaixonado” do grupo. Situação, aliás, que o incomoda profundamente, já que ele sonha em se apaixonar como todo mundo!

Eis que um dia ele conhece Chloé (Audrey Tautou), uma jovem bonita, inteligente, delicada e sensível, por quem ele se apaixona perdidamente. Os dois se casam e vivem felizes até o dia em que Chloé fica doente e a vida começa devagarzinho a desbotar. Ela tem uma flor crescendo dentro de seu pulmão. Uma flor que vai tudo vai mudar. E que vai pouco a pouco impedir os raios de sol de adentrarem a casa e o coração dos dois enamorados.

A crítica francesa foi bem severa com o filme de Gondry, afirmando que o excesso de efeitos visuais – feitos à moda antiga, diga-se de passagem – acabou por sufocar o jogo de atores e a emoção do romance vivido entre Chloé e Colin. Concordo em parte.

É verdade que o filme demora um pouco para “pegar”, sendo um pouco difícil para nós, espectadores, embarcarmos numa história tão abarrotada de simbolismos. Comidas vivas, feitas de tecido, pernas que se tornam elásticas ao dançarem, raios de sol que se materializam em forma de fios, um rato que é o espelho de seu dono… Elementos metafóricos que podem, vez por outra, desviar nossa atenção da história em si.

No entanto, a culpa talvez não esteja exatamente da overdose visual de Gondry, mas do excesso de tecnologia digital a que estamos acostumados hoje em dia. Uma tecnologia que vicia, que cega nossos olhos para outro tipo de realidade, ou pior, que confunde nossas mentes, não nos permitindo mais distinguir o real da ficção.

Certamente, Gondry poderia ter lançando mão “do famoso fundo verde” para recriar o universo de Vian diretamente no computador, como o fizeram tão bem James Cameron, Peter Jackson e tantos outros. Provavelmente, a coisa ficaria mais suave e mais verossímel para nós, espectadores do século 21. Afinal de contas, não assistimos e aplaudimos de pé Avatar ou Hobbit com suas overdoses de efeitos especiais e com suas histórias igualmente surreais?

Mas não. Gondry optou por deixar o absurdo com cara de absurdo. O surreal com cara de surreal. E talvez por isso ele tenha “pecado”. Talvez por isso esteja sendo punido pela crítica impiedosa dos franceses, seus compatriotas.

Apesar dos excessos, o filme é uma experiência bem interessante e válida, oferecendo-nos, de bandeja, uma porção de reflexões sobre a vida, a morte, religião, política, amor, amizade, etc.

É preciso, no entanto, abstrair-se da loucura, ou, ao contrário, deixar-se levar pela loucura do visual para adentrar o universo poético do filme. Para se deixar tocar pela beleza dos simbolismos ali expostos. Para conseguir se identificar, por exemplo, com as cores que desaparecem à medida em que a vida vai perdendo o sentido. Ou com os espaços que diminuem à medida em que a angústia comprime nosso peito. Uma paleta de sensações que normalmente expressamos por meio de metáforas e que, no livro de Vian e no filme de Gondry, tomam forma e viram “realidade”.

Assim sendo e, contrariando em alto e bom som a crítica francesa, recomendo fortemente A Espuma dos Dias de Gondry. Sem falar no livro de Boris Vian, que já estou morrendo de vontade de ler.

* A revista Les Inrock postou em seu site um vídeo com um de seus críticos dando 3 razões para não se ir assistir ao filme de Gondry. Todas 3 relacionadas ao excesso de “efeitos”.

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OS AMANTES PASSAGEIROS (2013)
publicada em 7/7/13

Título original: Los amantes pasajeros
Origem: Espanha
Diretor: Pedro Almodóvar
Com: Lola Dueñas, Javier Cámara, Cecilia Roth, Raúl Arévalo, Pepa Charro

Depois da experiência sombria de A Pele que Habito (2011), Pedro Almodóvar está de volta ao estilo que o consagrou: as cores berrantes, o humor escrachado, satírico, exagerado, o universo kitsch e divertido com pequenas pitadas de drama aqui e acolá.

Por meio da história de um avião sem rumo, Almodóvar faz, neste seu último filme, uma alusão à situação atual da Espanha. Uma nação em plena crise, perdida, que voa sem destino certo. Um país que não sabe onde pousar, que procura desesperadamente seu “aeroporto seguro”.

A história se passa quase que inteiramente dentro de um avião, dividindo-se entre a pequena cozinha, a cabine dos pilotos e a classe executiva da aeronave, lugar privilegiado, a que poucos têm acesso, quer seja no avião ou na sociedade espanhola. Lá, voam poucos passageiros: um casal de recém-casados; uma sensitiva virgem, requisitada por narcotraficantes para encontrar uma pessoa desaparecida no México; uma ex-atriz, cafetina de renome, um empresário de sucesso; um ator de cinema e um político importante. Representantes excêntricos da elite emergente espanhola.

O destino é a Cidade do México. Porém, por um erro “bobo” da equipe de solo (Antonio Bandeiras e Penélope Cruz), o avião decola sem trem de pouso. E por isso, não pode continuar viagem, não pode atravessar o oceano, correndo o risco de não conseguir pousar em seu destino tão distante.

Piloto e copiloto são, então, orientados a ficar sobrevoando a Espanha até que tenham a autorização de algum aeroporto para pousarem. Só que isso não acontece. E eles ficam dando voltas e mais voltas no espaço aéreo espanhol, queimando combustível e a esperança de saírem desta situação com vida.

Temendo que o pânico tome conta dos passageiros, eles resolvem manter a situação em sigilo. Os passageiros da classe econômica são logo postos para dormir, juntamente com a tripulação responsável por servi-los. A eles é dado um sonífero misturado às suas bebidas, para que nada vejam, nada digam, nada reclamem. Uma bela alusão à classe trabalhadora, ludibriada com os mil planos econômicos milagrosos que nada resolvem e só pioram a situação do país.

Já a tripulação responsável pela classe executiva – composta por três comissários homossexuais caricatos – não conseguindo manter segredo, deixa escapar o problema e o desespero começa a tomar conta de alguns passageiros-executivos. Os três mosqueteiros resolvem, porém, a todo custo manter a alegria de seus clientes, recorrendo para isso ao álcool, à música e a “otras cositas más”.

A partir daí, várias histórias serão, então, contadas, reveladas, desmascaradas, entrecruzando as vidas dos personagens da classe executiva da Espanha num patchwork colorido e divertido, mas, por vezes, demasiado caricaturado.

Bastante interessante, sem dúvida, é a forma metafórica e irônica com que Almodóvar resolveu pintar e analisar seu país. Pena que ele se excedeu um pouco e errou na dose. O filme, que tinha tudo para ser “redondo”, acaba sendo escrachado demais, caricato demais, perdendo um pouco de sua força. Por outro lado, Os Amantes Passageiros traz de volta “o velho e bom” Almodóvar, com toda a alegria, a cor e a língua afiada que tanto lhe são características.

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O GRANDE GATSBY (2013)
publicada em 15/6/13

Título original: The Great Gatsby   
Origem: EUA / Austrália
Diretor: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann
Com: Leonardo Di Caprio, Tobey Maguire, Joel Edgerton, Carey Mulligan

Um grandioso espetáculo!

A mais nova versão de O Grande Gatsby – quarta feita até hoje para o cinema – é glamorosa, esplendorosa, grandiosa, luxuosa! Um mega show realizado pelo diretor australiano Baz Luhrmann, com direito a fogos de artifício e muitas borbulhas de champagne!

A história – já mil vezes conhecida, tirada diretamente da obra de F. Scott Fitzgerald, do misterioso milionário solitário que tudo construiu para conquistar a mulher amada – ganhou agora novos ares, cores e sons. A mais pura tecnologia digital transformada em espetáculo! O filme é exuberante!

A atuação de Leonardo Di Caprio, por sua vez, é elegante, equilibrada, precisa (como sempre) e absolutamente grandiosa, assim como seu próprio personagem. Em muitos momentos ele até lembra Robert Redford –  na versão de 1974, dirigida por Jack Clayton – sendo que o Gatsby de Di Caprio conseguiu ser ainda mais intenso, mais real e passar ainda mais emoções (contidas) do que o de seu veterano.

E já que falamos da versão de 1974, que tal brincarmos de jogo dos sete erros? Quem ainda não viu o filme com Redford, sugiro que veja. Não que a versão de 2013 precise de retoques ou de complementos. Ao contrário. A versão atual parece até mais completa do que a de antes, mesmo que apresente algumas cenas a menos, como a do pai chegando à casa de Gatsby, no final do filme.  Ou então, de cenas a mais, como a da hora do atropelamento de Myrtle Wilson. A minha sugestão é apenas que se faça da experiência de ir ao cinema assistir a um remake uma bela brincadeira, ou um gostoso exercício do olhar cinematográfico.

Vamos às diferenças:

1. Narração: A versão de 2013 conta com um narrador personagem, Nick (Tobey Maguire), muito mais presente do que a versão de 1974.  O que, por um lado, aproxima-nos dos personagens, principalmente do próprio Nick, com quem nos identificamos e por quem desenvolvemos grande simpatia. Isso ajuda muito na compreensão da história e dos sentimentos vividos por ele e pelos outros personagens. Mas, por outro lado, essa presença massiva – feita aliás, simultaneamente de forma escrita na tela, em bela sobreposição de imagens – faz-nos também ficar muito mais presos à visão que Nick tem sobre os acontecimentos. Na versão de Clayton somos mais livres, mais imparciais talvez.

2. Diálogos: Os diálogos de 1974 são mais diretos, mais explícitos, não dando margens a deduções ou a suposições, como acontece na versão de 2013. Particularmente, gosto bastante dos não-ditos de hoje. Combinam mais com a misteriosa vida de Gatsby.

3. Janela: Na versão de 2013, Gatsby espia constantemente Nick pela janela. Nick percebe que está sendo espionado. Esse voyeurismo, que dá um certo ar de mistério à história, não aparece na versão de 1974.

4. O convidado: Na versão de 2013, o fato de Nick ser o único verdadeiramente convidado (todos os outros costumam aparecer nas festas de Gatsby sem receberem convites) é bastante explorado. Primeiro, ele comenta em sua narração. Depois ainda o vemos na festa com seu convite na mão, tentando mostra-lo para alguém, como se estivesse meio perdido. Mas ninguém dá bola para sua fala. Já na versão de 1974, não o vemos procurando entregar o convite para ninguém, mas sendo identificado em meio à multidão de convidados e levado para algum lugar desconhecido, por um homem com pinta de segurança. Nick fica tenso, sente-se deslocado, ameaçado, como se fosse errado um joão-ninguém como ele estar naquela festa. Essa cena reforça a questão da diferença de classes sociais.

5. Diferenças sociais e raciais: Sem dúvida alguma, a grande questão do filme é a diferença entre classes sociais, representada pelos amores impossíveis entre os casais Daisy e Gatsby, Martin (marido de Daisy) e sua amante Myrtle, ou ainda entre o casal que nunca se constitui, Nick e Jordan (campeã de golf que só namora homem rico). Porém, na versão de 1974, a questão racial é levantada já bem no começo do filme e retomada em várias outras circunstâncias, em claro discurso que coloca os brancos como superiores aos negros. Na versão de 2013, a questão é levantada no começo do filme de maneira sutil e não mais é retomada em outras cenas.  A razão para essa mudança seja, talvez, o fato de que, de lá pra cá, muito se avançou na luta pela igualdade racial, embora não tenhamos, até hoje, colocado um fim nesta questão absurda de superioridade da raça branca.

6. Luz verde: Na versão de 2013 a luz verde proveniente do farol do píer da casa de Daisy vira quase um leitmotiv do filme, reaparecendo em várias cenas. Ela representa a esperança que Gatsby sempre teve de reencontrar sua amada, de reconstruir a vida a seu lado e de finalmente ser feliz. Em vários outros momentos, a luz verde, por vezes envolta por brumas, domina a tela e os pensamentos de Gatsby. Isto já não acontece no filme de 1974.  A luz aparece no começo do filme e só vai voltar a aparecer no seu final. O simbolismo está em ambas as versões, mas a presença física do verde na tela é bem menor, perdendo um pouco de sua força.

7. A música: Ao contrário da versão de 1974 que usou e abusou do jazz e das músicas contemporâneas à época em que se passa a história do filme (anos 20), a versão de agora é composta por música de artistas da atualidade, em dissonância com o figurino, com o cenário e com a época da história do filme. Músicas de Lana Del Rey, Jay-Z, Beyoncé, will.i.am, Fergie, etc. Esse parece ser, aliás, o estilo Baz Luhrmann de fazer filmes, que já havia optado pela dissonância musical em seus anteriores Romeu e Julieta (1996) e Moulin Rouge (2001). O resultado é novamente um grande espetáculo!

Fora esses sete pontos que levantei, há ainda uma série de outras diferenças entre as versões de 1974 e de 2013. Cenas a mais, cenas a menos. Falas distintas, falas iguais. Diferenças, por certo, mas que não diminuem em nada o valor nem de uma nem de outra versão. Ambas têm seu glamour. Sendo que a de hoje tem, a seu favor, a tecnologia e o Leonardo Di Caprio.

O Grande Gatsby é um filme-espetáculo, imperdível para quem gosta do cinema clássico norte-americano. Palmas para Baz Luhrmann!

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A DATILÓGRAFA (2012)
publicada em 26/5/13

Título original : Populaire
Origem : França
Diretor : Régis Roinsard
Roteiro : Régis Roinsard, Daniel Presley e Romain Compingt
Com : Déborah François, Romain Duris, Bérénice Bejo, Shaun Benson

Quem disse que a França não sabe fazer comédias românticas sem pretensões intelectualóides?

A datilógrafa é a prova – junto com tantos outros bons filmes lançados nos últimos dois anos na França – de que há uma nova geração de cineastas na terra de Asterix que já entendeu que não é crime algum produzir ou realizar filmes divertidos, leves, bonitos, sem que para isso, tenha que se desprezar a inteligência do espectador.

O primeiro filme do diretor Régis Roinsard é um filme alto astral, romântico, original, inteligente e delicioso de se assistir, no melhor estilo Audrey Hepburn de ser!

Os fãs dos românticos filmes americanos dos anos 50 e 60, tipo Sabrina (1954), Férias Romanas (1953), My Fair Lady (1964) e companhia, ou ainda dos filmes do cineasta francês Jacques Demy – Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) – vão se regalar com esse momento retrô e leve do cinema francês!

A trama se passa em 1958, em Lisieux, pequena cidade da Normandia. Lá mora Rose Pamphyle (Déborah François), uma jovem de 21 anos, filha de um pequeno comerciante, prometida em casamento ao filho do dono da oficina. A jovem, que trabalha com o pai em sua mercearia, sonha, no entanto, com uma vida diferente, mais grandiosa e glamorosa do que a que leva. Como muitas garotas da sua época, Rose quer ser secretária, conhecer um monte de gente e viajar o mundo, fazendo o que sabe de melhor: bater à máquina.

Com isso em mente, ela enfrenta seu pai, recusa-se a casar com seu pretendente local e se apresenta para uma entrevista para o cargo de secretária em uma empresa de seguros. O chefe é Louis Echard, jovem solteiro de 36 anos, um ex-atleta de coração endurecido.

A entrevista é um fiasco, mas Rose acaba conseguindo o cargo quando o competitivo Louis Echard descobre seu dom de datilógrafa. Sua condição para contratação é, porém, que ela participe – e ganhe – um concurso de rapidez datilográfica, muito em voga naquela época. Ele será, então, seu “coach”, despertando o atleta que estava nele adormecido.

Num cenário charmoso e colorido, totalmente anos 50, o filme flui com facilidade ao ritmo e som dos teclados duros das antigas máquinas de escrever. Aliás, ela – a máquina de escrever – é, na verdade, a personagem principal desta história, tornando-se o objeto-fetiche do filme, sendo-nos apresentada em closes e ângulos diversos, tocada e acariciada num desejo intenso, quase sexual.

A cena da entrevista, em que Rose datilografa pela primeira vez para seu futuro chefe, é um bom exemplo disso.

A datilógrafa joga, aliás, bastante com o duo sensualidade e inocência. Blusas que tornam-se transparentes com a chuva, decotes que deixam imaginar o “recheio”, closes em pedaços de pernas, ombros, braços e nucas… Enfim, uma série de códigos cinematográficos fetichistas que exaltam o jogo da sedução, e que fazem desfilar, sob nossos olhos, cenas cheias de uma sensualidade inocente que vão se somando, se acumulando e nos enchendo também de desejo de ver aquele casal se entregar logo à paixão.

As imagens grudadas na parede do quarto de Rose, em que aparecem, lado a lado, Marylin Monroe e Audrey Hepburn, demonstram também essa vontade de misturar sensualidade e inocência.

Já não tão inocente, porém, é a guerra apresentada entre os países e os empresários do ramo das máquinas. Lá sim, podemos perceber um quê de crítica (estereotipada) à guerra comercial feita via “pobres moças datilógrafas”, que não se percebem exploradas pelos “vilões empresários”. Fora a própria questão sexista, que é super presente e explorada no filme.

É, não dava para passar assim tão batido, sem nenhuma mensagenzinha mais séria. Mesmo que de maneira discreta… O filme pode ser visto também como uma sátira à eterna (e pra lá de ultrapassada) guerra cultural entre França x EUA, terminando com uma frase bem maniqueísta, totalmente dispensável, mas que pode ser, ao contrário, interpretada justamente como uma crítica aos estereótipos desses dois povos.  Deixo a vocês o direito de julgar.

A datilógrafa é um filme delicioso!

PS. Déborah François não teve dublê para nenhuma cena do filme. As mãos que aparecem datilografando são as dela SEMPRE, mesmo nas cenas de competição. Para isso, a jovem atriz teve 3 meses de treino! Bravo!

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O Abismo Prateado (2011)
publicada em 6/5/13

Título original: O Abismo Prateado
Dirigido por: Karim Aïnouz
Escrito por: Beatriz Bacher
Com: Alessandra Negrini. Otto Jr, Thiago Martins.

Denso, angustiante, profundo e lento!

O filme do diretor cearense Karim Aïnouz inspira-se na música “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque. Toda a trama se passa em pouco mais de 24 horas, desde a noite anterior a uma separação até o fim da noite seguinte, que termina levando com ela o sentimento de ter chegado ao fundo do poço.

Após uma noite (aparentemente) comum na vida de um casal, o marido – Djalma (Otto Jr) – deixa uma mensagem na secretária eletrônica do celular de sua esposa – Violeta (Alessandra Negrini) – com uma informação que vai revirar a vida daquela dentista que, até então, acreditava viver uma vida feliz.

O filme é todo angústia. As cenas longas, a falta de diálogo (o filme tem muito poucas falas) e a escolha de deixar apenas o primeiro plano focalizado, tudo contribui para passar ao espectador a sensação de estar diante de um abismo, ou de cair nele. O sentimento que se tem é de “falta de chão”; e isso Alessandra Negrini conseguiu nos transmitir com sucesso.  Junto com ela, mergulhamos no abismo, perdemos o foco da vida, nos desesperamos… até conseguirmos perceber (com ela e por ela) que há uma esperança, que tudo não está perdido.

A cidade do Rio de Janeiro se faz muito presente – através dos inúmeros planos do mar, da praia, das luzes da cidade – sendo praticamente mais um personagem do filme.

O Abismo Prateado” foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 2011. E foi recebido com aplausos.

Trata-se de um filme de autor, sem dúvida. O que pode agradar alguns e desagradar muitos.

Recomendo aos que apreciam novas experiências cinematográficas, filmes de arte e cinema não comercial.

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Qual é o nome do bebê?
publicada em 29/4/13

Título original: Le Prénom
Origem: França / Bélgica
Diretores: Alexandre de la Patelièrre e Matthieu Delaporte
Roteiro: Matthieu Delaporte
Com: Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquédec, Judith El Zein

Dentro dos mesmos moldes de Carnage, de Roman Polanski, lançado em 2011, Qual é o nome do bebê (aliás, uma horrorosa “tradução” do título original Le Prénom )é uma peça de teatro levada à telona! Um filme em que o maior efeito especial é o texto! E em que o jogo de cena é a grande “tecnologia” utilizada.

A história – baseada na peça escrita pelo mesmo Matthieu Delaporte que assina o roteiro do filme – começa quando Vincent (Patrick Bruel) e sua esposa Anna (Judith El Zein), grávida de 5 meses, são convidados para jantar na casa de sua irmã Elisabeth (Valérie Benguigui) e de seu cunhado Pierre (Charles Berling), na companhia ainda de um amigo de longa data, o pacífico e contido suíço Claude (Guillaume de Tonquédec).

Uma noite em família, com ares de normalidade, em que tudo parece estar no lugar – boa comida, bom vinho, boa música… – até o momento em que Vincent resolver anunciar o nome escolhido para o bebê.

Nasce ali, então, naquela noite, a polêmica. Seguida da revelação, da raiva, da vergonha, da falta dela , bem como do medo dos desdobramentos da verdade.

A paz e a leveza do início cedem espaço a discussões variadas, que vão se emendando, uma após a outra, se aprofundando, se complicando até chegar ao ponto do sem-volta. Verdades em forma de opiniões são cuspidas, vomitadas, berradas. O clima vai ficando pesado, tenso, quase insuportável. Segredos são revelados, “pecados” são expostos, mas as mea culpa são, na maior parte das vezes, ignoradas. E tudo isso sem nunca deixar de lado o humor inteligente e o volume alto dos debates tão tipicamente franceses!

Apesar do ambiente huis clos – praticamente todas as ações se passam entre a sala de jantar e a sala de estar do apartamento de Elisabeth e de Pierre – e do número não tão vasto de personagens, o filme consegue manter bem o ritmo, não nos deixando cair no sono nem no tédio em nenhum momento. Isso graças aos ricos diálogos e ao jogo de cena dos atores.

A crítica francesa não foi, no entanto, muito positiva com Le Prénom, talvez justamente pelo fato de o filme ser assim… tão francês… por mostrar, por meio de um humor mordaz, certos estereótipos gauleses que refletem (e que certamente exageram) um pouco do que eles são.

Há, por exemplo, o intelectual de esquerda, professor universitário, que se julga humilde, não ligando nada para as aparências nem para os bens materiais. Ele não se incomoda de não ter carro do ano e nem mesmo se preocupa com o que os outros pensam dele por usar sempre o mesmo paletó de veludo cotelê, até mesmo durante o verão…

Há também o personagem bling-bling (uma expressão bem francesa que é usada para os emergentes, para os que realmente ligam – e assumem que ligam – para as aparências). São os  capitalistas perdulários ou talvez um tipo de “nouveau dandy”, só que sem o charme intelectualóide desta figura.

Para completar o quadro dos clichês franceses, há ainda a mãe-esposa frustrada, que não foi adiante na carreira por causa do casamento e da maternidade; ou ainda a profissional bem sucedida que está sempre atrasada e que tem toda a pinta de que não vai ser boa mãe (ela até fuma durante a gravidez!). Fora o artista, claro! Não há França sem arte! Um músico, mais precisamente, um homem do bem, sensível, que sabe apreciar o belo, que consegue tirar um imenso prazer das coisas simples da vida, como aromas, cores, sons, etc. Ah, um detalhe importante: o artista francês do nosso filme não é francês, é suíço. O que torna a “piada” ainda melhor, pois assim ele pode ser retratado como o “neutro”, o que se abstém de dar opiniões, o que não entra em guerras… Muito interessante ver como os franceses (e talvez o resto do mundo) pintam os suíços!

E assim o filme segue, enveredando em alguns pontos por caminhos perigosos, às vezes, sem volta, fazendo-nos pensar até onde devemos ir com a verdade. Até que ponto podemos conviver bem em sociedade sendo inteiramente sinceros. Perguntas talvez sem resposta. Ou talvez com respostas que nós simplesmente não queremos ouvir.

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OBLIVION (2013)
publicada em 22/4/13

Título original: Oblivion
Origem: EUA
Diretor: Joseph Kosinski
Roteiro: Joseph Kosinski, Karl Gajdusek, Michael Arndt
Com: Tom Cruise, Morgan Freeman, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough

Essa crítica vai hoje para os amantes de ficção científica, como eu.

O filme de Kosinski certamente não virará um clássico, não tem força nem originalidade para tanto. Porém, para os que apreciam as naves, computadores e as mais diversas invenções dos filmes de ficção científica, ele pode deixar lá algumas marcas.

Vamos à história primeiro.

Em 2077, Jack Harper (Tom Cruise) é o encarregado da segurança de uma operação que visa retirar da Terra os recursos ainda existentes. Para isso, ele se ocupa da manutenção dos drones – robôs redondos e brancos, superpoderosos, encarregados eles próprios da patrulha do devastado planeta Terra, agora só povoado pelos misteriosos e perigosos Saqueadores.

Em 2017 a Terra entrou em guerra contra alienígenas e saiu vitoriosa. Teve, no entanto, sua lua destruída e, com isso, o planeta completamente revirado. Assim como em Wall-E (2009), os humanos sobreviventes foram evacuados para uma colônia espacial.

Para ajudá-lo em seu trabalho, Jack conta com Vika (Andrea Risebourough), com quem mantém também uma relação conjugal. Eles formam uma “boa equipe” e um casal.

Os dois são os únicos habitantes humanos do planeta e levam uma bem vida rotineira, enquanto aguardam o dia de serem levados de volta para a colônia espacial. Moram em um apartamento-torre suspenso no ar, absolutamente divino! A piscina é de fazer inveja a qualquer projeto arquitetônico mundial. Essa seja, talvez, uma das marcas que, imagino, devam ficar impressas nas mentes ávidas de modernidade. Juntamente, claro, com a nave pilotada diariamente por Jack, que é super bem bolada! Mas o mais interessante é que a tecnologia dos dispositivos utilizados nesse filme nos parece bem plausível, nada muito distante da realidade que já vemos por aí. O que acaba por nos aproximar desse futuro pintado na tela!

Vika trabalha de “casa”, fazendo o meio-de-campo entre Sally (Melissa Leo) – que fica na nave-mãe, dando os comandos – enquanto Jack, o trabalhador braçal, voa todo dia em sua pequena nave, descendo até a Terra destruída para consertar os drones ameaçados pelos Saqueadores.

Tudo vai bem até que, a duas semanas do fim da missão, Jack é surpreendido pela chegada de uma nave espacial com humanos encapsulados (dormindo). E nela está Julia (Olga Kurylenko), uma moça que habita seus sonhos e que vai ajuda-lo a descobrir “a verdade”.

A partir daí, o ritmo do filme se intensifica. Jack vai, pouco a pouco, fazendo descobertas que vão abalar tudo o que acreditava até então. Mas não vou falar mais, pois estragaria o prazer de quem vai assistir ao filme. Só adianto que elas são não são muito diferentes de inúmeras histórias que já vimos no passar dos anos. Nada de grandes novidades! Aliás, parece que Kosinski se divertiu ao encher o filme de referências a uma porção de obras de ficção já feitas.

Para os amantes do gênero, uma boa pedida é, então, tentar relacionar essas referências aos filmes que lhes inspiraram. O robô-nave-mãe, por exemplo, é muito parecido com o robô de 2001, Uma odisseia no espaço (1968), HAL 9000. A sequência da plantinha, quando Jack entrega à Vika uma lata com uns verdinhos dentro, é Wall-E puro!

Isso porque, assim como o robozinho chapliniano da Pixar, Jack sofre de uma nostalgia do que não viveu. Ele é um romântico, um sonhador. E, assim como seu colega de lata, coleciona objetos “preciosos” que vai encontrando pelo caminho, marcas de uma Terra ainda cheia de vida.

Para os amantes da música, o filme também oferece algumas pérolas: Led Zeppelin, Duran Duran, Asia…

Oblivion, certamente, não é uma obra-prima da ficção científica, mas é um filme bem ritmado, bem feito e interessante, que proporciona bons momentos de diversão.

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Thérèse D. (2011)
publicado em 8/4/13

Título original: Thérèse Desqueyroux
Origem: França

Diretor: Claude Miller
Roteiro: Natalie Carter, Claude Miller
Com: Audrey Tatou, Gilles Lellouche, Anaïs Demoustier

Uma “tragédia amoral”, fruto de sentimentos ambíguos e complexos, contada de maneira simples e elegante.

A adaptação do romance de François Mauriac, escrito em 1927 e levado às telas pela primeira vez em 1962, por Georges Franju, foi a obra escolhida por Claude Miller para ser seu filme-testamento. O último de sua carreira.

O diretor francês morreu na fase final de produção do filme, não tendo tido tempo nem de vê-lo ser exibido em Cannes.

O romance que causou furor no final dos anos 1920, conta a história de Thérèse Larroque, transformada por casamento em Thérèse Desqueyroux. Um casamento de conveniência, feito para unir duas famílias donas de grandes propriedades agrícolas na região de Landes, na França.

Thérèse (magnífica na pele de Audrey Tatou), criada pelo pai e por uma tia surda, era um espírito confuso, complexo e fora do comum. A frente do seu tempo, inteligente e de pensamento sofisticado, ela própria não entendia o que se passava dentro de sua cabeça. Não entendia seus sentimentos, seus anseios nem seus sonhos. Era uma mente em crise. Ela sonhava com o dia em que se libertaria dessa prisão que era seu próprio corpo. Ela sonhava com a paz da simplicidade. E chegou a acreditar que o casamento podia lhe trazer essa sensação.

O marido “arranjado” de Thérèse, Bernard (Gilles Lellouche) – que era também o irmão de sua melhor amiga Anne (Annaïs Domoustier) – era um homem da categoria dos “simples”, satisfeito com sua condição de dono de terra e esposo de uma mulher igualmente proprietária de terra, bem adaptado às convenções e às tradições locais. Para ele, a vida era fácil e descomplicada.

Mas a introspectiva e taciturna Thérèse não vai desistir de sua tão sonhada paz libertadora. E para consegui-la, ela será capaz de tudo!

Ao contrário da versão de 1962 – que é contada por meio de uma série de flash-backs – a atual é contada de forma linear, clássica, clara e fácil de entender. O que não deixa de ser curioso, já que contrasta tão fortemente com a complexidade da protagonista, dona de um espírito marcado por ziguezagues, reviravoltas e vais e vens. E, confesso, não fosse a brilhante atuação do trio Tatou-Lellouche-Domoustier, impondo-lhe ritmo e força, o filme seria extremamente monótono.

Talvez o que Claude Miller pretendesse com esse classicismo todo fosse justamente mostrar como era viver em uma sociedade linear, fechada em suas próprias convenções, tradições e regras sociais e familiares. Uma vida monótona para muitos, sobretudo se enxergada pelos olhos de um espírito sensível, inquieto, angustiado e sonhador de liberdade como o de Thérèse.

Esteticamente falando, o filme-testamento de Claude Miller é extremamente pictural, com lindos planos “pintados à mão”. Planos gerais de florestas, de campos e do mar com um certo barquinho vermelho passando ao longe, de uma intensidade e riqueza de cor que beiram o artificial, parecendo ilustrações ou telas transportadas para o cinema.

Um ponto bastante interessante do filme (e imagino que do romance, que não li infelizmente) é que ele não nos induz a um julgamento de valor. Não nos faz pensar o tempo inteiro se Thérèse agiu de maneira correta ou errada. Entendemos seu sofrimento. Sofremos com ela. Percebemos que, da sua maneira peculiar, tudo o que ela buscava era sua paz de espírito. Sua liberdade de pertencer à “raça implacável dos simples”. E ponto.

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Oz: Mágico e Poderoso (2013)
publicado em 29/3/13

Título original: Oz: The Great and Powerful
Origem: EUA
Diretor: Sam Raimi
Roteiro: Mitchell Kapner, David Lindsey-Abaire
Com: James Franco, Mila Kunis, Rachel Weisz, Michelle Williams

Depois de Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve (em duas versões), Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e tantos outros clássicos revisitados, chegou a hora e a vez de O Mágico de Oz.

A obra do escritor americano L. Frank Baum, publicada pela primeira vez em 1900, transformada em filme por Victor Fleming em 1939, e, imediatamente catapultado a grande clássico da história do cinema, ganha agora novas cores,  direção e tecnologia.

Para dirigir esta nova aventura em 3D, o escolhido foi Sam Raimi, autor da trilogia Homem-Aranha e dos três clássicos de horror cômico americano dos anos 80, The Evil Dead.

Mas a versão 2013 não conta exatamente a mesma história levada às telas por Fleming. Nada de Dorothy (insubstituível Judy Garland), nem Homem de Lata, nem Leão, nem Espantalho. Oz: Mágico e Poderoso conta, na verdade, o que precedeu a chegada de Dorothy e seus amigos à cidade das Esmeraldas. Conta como aquele mágico poderoso ali chegou e como tomou aquela misteriosa forma de cabeça flutuante.

Independente da história contada, o filme é, antes de mais nada, uma grande e linda homenagem à sétima arte, assim como foram recentemente os magníficos Hugo Cabret (2011) e O Artista (2011). Uma bela lição de história do cinema, com a exibição de uma série de dispositivos que antecederam à criação do cinematógrafo, dando destaque para a importante figura de Thomas Edison. Uma pérola rara para quem curte história do cinema!

O filme já começa em preto e branco, num formato quadrado, característico do cinema dos primeiros tempos. A ambientação do início é, aliás, fantástica, com a reconstrução das famosas fêtes foraines (feiras ou quermesses) tão comuns na virada do século, com seus museus de cera, shows de mágica, espelhos deformantes e muito mais. É lá que o ilusionista Oscar “Oz” Diggs (James Franco), trabalha, faz sua vida e “ilude” o público (e as moçoilas) com seus números de magia.

Só depois do furacão, que leva o falso mágico, à Oz é que o filme muda seu formato para Cinemascope (retangular, comprido) e adentra o fascinante mundo do Technicolor, grande novidade tecnológica nos anos 1930.

Dali em diante, vamos reconhecer alguns personagens da versão antiga, como a bruxa boa Glinda (Michelle Williams), as bruxas más Evanora (Rachel Weisz) e Theodora (Mila Kunis), os pequeninos Munchkins, sem falar nos cenários super coloridos, dignos dos melhores contos de fada. Tudo muito bem feito, fazendo excelente uso da tecnologia que o século XXI trouxe ao cinema. A 3D – que não é coisa deste século, mas foi nele redescoberta – é, aliás, impecável. Nem demais, nem de menos.

Com relação à música, a versão de Sam Raimi não é tão “musical” como o clássico de Fleming. Há poucos momentos de “números musicais” e os personagens não falam via canções (para a alegria dos que sofreram recentemente assistindo Os Miseráveis). Fora isso, o diretor estava consciente da façanha que seria conseguir repetir um fenômeno do porte de Somewhere over the rainbown. Optou, então, por outro caminho. Chamou o competente Danny Elfman,  que criou para o Oz de 2013 uma trilha original, moderna e bonita. Mas não é preciso nem dizer que nenhuma música do filme chega aos pés daquela cantada por Judy Garland em algum rancho perdido do Kansas, clássico absoluto da música no cinema.

Oz: Mágico e Poderoso é um filme divertido, gostoso de assistir, cheio de fantasias e de referências à história do cinema. Há algumas cenas, porém, que podem assustar os pequenos, mas encantar os mais velhinhos (como eu).

Um filme PRA SE DIVERTIR.

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OS MISERÁVEIS (2012)
publicada em 25/5/13

Título original: Les Misérables
Origem: EUA
Diretor: Tom Hooper
Roteiro: William Nicholson, Alain Boublil, Claude Michel Schönberg, Herbert Kretzmer
Com: Anne Hathaway, Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Sasha Baron Cohen, Helena Bonham Carter.

Primeira coisa a ser dita: trata-se de um musical!

Pode parecer óbvio, mas esta informação é de suma importância, pois ela pode (e deve) ser decisiva na hora de sua escolha de ir ou não ao cinema para assistir Os Miseráveis.

Caso você goste de musicais, vá em frente, compre seu bilhete e se deixe levar por este filme, baseado na obra de Victor Hugo, ou mais precisamente, no musical encenado na Broadway, inspirado, por sua vez, na obra do grande escritor francês.

Agora, se você for do tipo que acha chato (ou mesmo ridículo) ficar ouvindo cada linha de texto ser dita em forma de canção, esqueça! Não vá ao cinema. Alugue depois para ver em casa, se achar que vale a pena. Mas, por favor, não atrapalhe o prazer dos que conseguem embarcar nesta viagem. Não há nada pior do que ser abduzido do filme pelas risadinhas ou piadinhas de vizinhos mal educados.

A obra de Victor Hugo – mil vezes revisitada – conta a história de um homem, Jean Valjean (Hugh Jackman) que vai preso por haver roubado um pão para matar a fome de seu sobrinho. Depois de cumprir sua longa pena, ao contrário de ser liberado, ele é surpreendido com a informação de que continuará ali até o fim de sua vida. Indignado com a notícia, ele foge e erra pelo mundo, tentando recomeçar sua vida. Mas todos fecham as portas a um ex-presidiário sem papéis. Jean Valjean passa frio, fome, dorme na rua, até ser socorrido por um padre. Ele lhe dá pão, abrigo e esperança. Dali a alguns anos, com outro nome, ele se tornará prefeito de uma cidade e um defensor dos pobres e oprimidos. Um homem sedento de justiça que, ao se dar conta de não ter sido capaz de impedir a demissão injusta de uma de suas funcionárias – Fantine (Anne Hathaway) – acaba prometendo-lhe zelar por sua filha Cosette.

A produção é grandiosa! A cena de início, no navio é digna de grandes épicos. A música, naturalmente, é fantástica  (para quem aprecia musicais, claro)! Tudo é over, exagerado, como no teatro.

Repito: estamos aqui diante de um musical transformado em filme! Não vá, portanto, esperando nada de muito real.

Ao contrário, os inúmeros closes nos rostos calculadamente sujos dos atores são testemunhos dessa falta de compromisso com o real. No entanto, ajudam-nos a adentrar aquele mundo musical e a viver bem de perto as emoções dos personagens.   As tomadas aéreas, que contrastam fortemente com os closes, no entanto, lançam um qualquer olhar divino sobre aquele povo tão sofrido, servindo também para separar as sequências (ou os atos) do filme.

Assim sendo, encare Os Miseráveis de Tom Hooper como uma fábula! Uma história de onde se pode tirar uma moral. Ou, em caso extremo, até como um tipo de Ídolos (ou X-FactorThe Voice, etc), em que os atores hollywoodianos têm que provar suas habilidades musicais.

Aprecie cada plano como se fosse um quadro vivo! Eles são belos, bem estudados, bem enquadrados (mesmo com seus ângulos esdrúxulos)! Sua tonalidade escura reflete bem a dor dos miseráveis, dos injustiçados franceses daqueles tempos, daquele povo que carecia  tanto de luz.

E você verá, então, que vale a pena! O elenco é bom! Hugh Jackman está excelente! Anne Hathaway também, tanto que levou o Oscar de Melhor Atriz coadjuvante domingo passado. É verdade que Russell Crowe pena um bocado para cantar, tendo certa dificuldade para convencer-nos na pele do malvado Javert. Mas, mesmo assim, o filme ainda vale, nem que seja como uma nova experiência cinematográfica.

Vamos lá, abra seu coração e receba Os Miseráveis como ele é! Esqueça por algumas horas (o filme é bem longo!) o mundo real. Não fique o tempo todo pensando que no dia-a-dia ninguém canta suas falas daquele jeito. Mergulhe nesta fábula de corpo e alma. E deixe-se levar pelas músicas, pela interpretação e pela beleza dos planos!

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Os Infiéis (2012)
publicada em 10/3/13

Título original: Les Infidèles
Origem: França
Diretor: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Michel Hazanavicius, Emmanuelle Bercot, Fred Cavayé, Alexandre Courtes, Eric Lartigau
Roteiro: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Nicolas Bedos, Philippe Caverivière, Stéphane Joly
Com: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Alexandra Lamy, Sandrine Kiberlain

Engraçado, caricato, muitas vezes machista e irritante, Os Infiéis é um besteirol com um quê de seriedade!

Depois de estourar em O Artista, Jean Dujardin está de volta às telonas, desta vez em uma, ou melhor, em várias versões bem menos glamorosas! Isto porque neste filme ele incarna vários personagens que trazem uma característica em comum – a infidelidade.

A fórmula utilizada não é nova, mas não deixa de ser interessante. O filme é composto por vários sketches (pequenos filmes) que contam histórias de maridos infiéis. Umas são mais engraçadas, outras mais sérias, umas bem reais e plausíveis, outras totalmente surreais mas, sabe-se lá Deus se não possíveis… Enfim, um pot-pourri de situações, em geral cômicas, em que o “fil rouge”, como dizem os franceses, é a infidelidade.

Cada sketch foi dirigido por um diretor diferente, incluindo os dois atores principais, Jean Dujardin e Gilles Lellouche, que são também os roteiristas do filme. Sem falar no oscarizado diretor de O Artista, Michel Hazanavicius, que ficou responsável por três sketches.

Os Infiéis é também uma experiência cinematográfica interessante, se quisermos tentar identificar as diferenças de estilos entre os diretores. Mas já adianto que elas não são muito gritantes. Apesar de se tratar de um longa composto por diversos curtas, realizados por pessoas diferentes, há, lá no fundo “um todo” que organiza o roteiro do grande filme. O primeiro e o último sketches contribuem enormemente para esta sensação, já que trazem os dois personagens principais em suas versões “dois amigos solidários nas suas traições quotidianas…”

O filme é relativamente democrático… Há para todos os gostos. Ou quase todos. Há momentos que nós mulheres nos sentimos bastante ultrajadas, se levarmos a coisa a sério demais. Há momentos em que sentimos pena e total desprezo pela infantilidade e animalidade masculina. Mas há também momentos de seriedade – muito poucos – em que podemos refletir sobre o que representa a fidelidade em um relacionamento longo e valioso. É o caso do sketch em que Dujardin contracena com sua própria esposa na vida real (Alexandra Lamy). Muito bom, por sinal! É quase um oásis no meio do filme, em que por alguns minutos paramos de rir das situações patéticas que nos são apresentadas para, enfim, pensarmos na importância ou não da confiança, da lealdade e da fidelidade em um relacionamento. Coincidência ou não, este é o único sketch dirigido por uma mulher – Emmanuelle Bercot.

Os Infiéis não é nenhuma obra-prima do cinema. Mas é um filme que pode ser bem divertido de ser visto – principalmente para os homens!  (Desculpem-me a frase pra lá de machista…) E para nós mulheres também, se formos ao cinema com o espírito e mente abertos, prontas para enxergarmos a autocrítica que fazem seus diretores.

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O Lado Bom da Vida (2012)
publicado em 26/2/13

Título original: Silver Linings Playbook
Origem: EUA
Diretor: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell
Com: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker

Uma comédia romântica (dramática) elegante, inteligente, sensível e encantadora!

Como o próprio título sugere, o último filme de David O. Russell nos faz enxergar a vida com bons olhos! Faz-nos ver o copo meio cheio, deixando-nos com aquele gostinho bom de felicidade na alma.

O filme – baseado no livro The Silver Linings Playbook (2008) de Matthew Quick – conta a história de Pat Solatano (irresistível Bradley Cooper), um ex-professor de história que sofre do hoje famoso transtorno bipolar. Após um período de oito meses internado em um hospital psiquiátrico, ele volta para a casa dos pais a fim de tentar se reintegrar à vida “normal”. Seu sonho (e obsessão)? Reconquistar sua esposa, recuperar seu emprego e ser feliz.

Acontece que no meio do caminho de Pat havia uma pedra (ou flor?!) chamada Tiffany, uma Jennifer Lawrence esbanjando charme e talento. Jovem viúva ninfomaníaca, que, de volta à casa dos pais, também sofre para se reintegrar à vida “normal” após perder o emprego, o marido e o rumo.

Essas duas almas perdidas se encontram e fazem, então, um acordo de cooperação mútua: ela vai ajuda-lo a reconquistar sua esposa, funcionando como pombo-correio entre os dois; e ele, em troca, compromete-se a participar com ela de um concurso de dança.

E é desse encontro desajeitado entre dois seres “atípicos” e de suas respectivas e semelhantes tentativas de se enquadrar no que a vida chama de normal que nasce a beleza de O Lado Bom da Vida.

Filmada com uma câmera nervosa, angustiada, que segue os personagens de maneira esquizofrênica, a primeira parte do filme é mais tensa, mais centrada em nos apresentar o mundo bipolar em que vive seu protagonista. Ela sobe e desce, vira para um lado e para o outro, de maneira brusca, inquieta, nervosa. Na cena do flashback, quando Pat conta sobre a noite em que atacou o amante de sua esposa, a sensação de desconforto é ainda maior devido a uma câmera subjetiva totalmente desnorteada. Sentimo-nos de fato na pele de Pat. Sentimos sua raiva, seu desespero e seu descontrole.

No entanto, à medida que as coisas vão se ajeitando na vida do rapaz, à medida que ele vai se acalmando, ou conseguindo controlar seus quadros de depressão ou mania, a câmera parece também suavizar seus movimentos. Os dois (câmera e protagonista) estão em sintonia. Ela já não se mexe mais de forma tão caótica, tão afogueada. Ele já não sofre mais crises tão severas. Mas isso acontece de forma sutil, gradativa, quase imperceptível.

A fotografia do filme não é tampouco exatamente a que se espera de uma comédia romântica hollywoodiana. Ela é mais fria, mais seca, menos glamorosa, menos cara. Sobretudo nas sequências do início, em que penetramos no mundo de sofrimento do protagonista. É bem verdade que David O. Russell segue mais a linha dos diretores independentes dos EUA – como Wes Andersen, do recente Moonrise Kingdom, ou Jonathan Dayton e Valerie Faris, de Pequena Miss Sunshine – fazendo menos uso de grandes “budgets” e mais uso do jogo de atores e dos diálogos trocados. E é esta, sem dúvida, a maior riqueza do filme.

Robert De Niro, no papel de pai de Pat, um fanático por futebol americano, colecionador de TOCs, está muito bem, leve, descontraído, até mesmo jovial. Jacki Weaver, por sua vez, no papel da mãe preocupada, super empenhada em ver o filho sair da crise, também está excelente.

Para completar esta bem sucedida comédia romântica (ou dramática) a trilha sonora assinada por Danny Elfman é excelente e expressa com precisão os vários sentimentos vividos no filme. Destaque para My Cherie Amour (1969), de Steve Wonder, leitmotiv do filme e desencadeador de uma enxurrada de sentimentos do protagonista Pat.

O Lado Bom da Vida é um filme bem equilibrado – ao contrário de seu tema bipolar – que sabe dosar com elegância o humor e o drama. Delicioso de se ver!

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LINCOLN (2012)
publicado em 17/2/13

Título original: Lincoln
Origem: EUA
Diretor: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner
Com: Daniel Day-Lewis, Sally Fields, Tommy Lee Jones, David Strathairn

Quando se pensa em Spielberg se pensa logo em super produções, recheadas de cenas de ação, feitas com tecnologia de ponta!

Mas não se engane! Em seu último filme – Lincoln – Spielberg fugiu a esta tradição! Não que o filme seja pobre de produção. Longe disso! Ele é, a bem da verdade, grandioso, em todos os sentidos da palavra. Acontece que as cenas de ação deram lugar, desta vez, às cenas de diálogos, maravilhosamente escritos por Tony Kushner, de uma complexidade e inteligência de tirar o chapéu. Nunca um filme de Spielberg foi tão centrado na fala, na argumentação e na arte da retórica.

Lincoln conta os últimos meses na vida de um dos maiores presidentes que os Estados Unidos tiveram, Abraham Lincoln. Um homem que virou monumento, herói e mito, interpretado por um Daniel Day-Lewis absolutamente perfeito.

O filme se concentra, na verdade, em sua última grande batalha e talvez um de seus maiores legados: a abolição da escravatura, por meio da aprovação da 13ª Emenda Constitucional. Ao mesmo tempo que negociava o fim da Guerra de Secessão e o reestabelecimento da União.

Acontece que, para chegar até lá, o mito Lincoln se fez homem, desceu à terra e lançou mão de vários artifícios do jogo político. “Comprou” votos, levantou a voz, fez uso de seus poderes de presidente da república, mentiu, adiou o fim da guerra – que matava tantos cidadãos americanos – mas acabou conseguindo o que se pensava impossível e que ele julgava fundamental na conquista da paz entre os homens. A partir do dia 31 de janeiro de 1865 é abolida a escravatura nos EUA.

Mas nada foi em vão, muito menos sem sofrimento. E Spielberg nos mostra isso, sem nunca cair na armadilha do melodrama. Um Lincoln humano, forte e fraco, com defeitos e qualidades. Um pai, um marido, um filho, um presidente. Um homem público que sofre em sua intimidade para tomar e sustentar suas decisões.

Poucos filmes mostraram tão bem o jogo político sem se deixar contaminar pela mania do julgamento de valores, feitos, muitas vezes, a partir de contextos tão distantes e distintos, que acabam por conduzir a conclusões equivocadas. Spielberg foi mais inteligente que isso. Ele conseguiu nos mostrar de maneira sensível e intimista as nuances do poder. Talvez o fato de ter como protagonista um homem-herói, um homem-mito, uma figura “intocável” da história tenha o ajudado nesta missão. O Lincoln de Spielberg é um homem público (e privado) que soube enfrentar seus próprios medos e limites éticos a fim de atingir um objetivo maior, que julgava necessário para a evolução dos direitos humanos e da própria vida em sociedade.

Com relação à estética, Spielberg optou pelos tons escuros, pela imagem contrastada e, sobretudo, pelo uso do contre-jour. É incrível a quantidade de planos feitos contra a luz. Resultado: imagens envolvidas por uma névoa branca, com uma luminosidade excessiva que cega parcialmente. Uma luz tão intensa que não nos permite ver em detalhes personagens nem objetos. Apenas suas sombras e silhuetas. E não era isso que acontecia nos EUA (e no mundo) daquela época? Uma espécie de cegueira coletiva? Em que a maioria das pessoas não conseguia enxergar com nitidez o que nos parece hoje tão claro: que todos somos iguais perante à lei e mesmo fora dela.

Ao mesmo tempo, uma luz que é também a esperança de mudança, que vem para iluminar as ideias tão escurecidas daquela época e daquelas pessoas. Que abre novos caminhos, novas janelas, portas e cabeças. A cena de Lincoln com o filho na hora em que termina a votação da 13ª emenda ilustra bem isso!

Destaque também para a sequência do sonho de Lincoln, que se inicia com imagens que lembram uma animação de Alexeieff *, em que o presidente está de pé em um barco que navega em grande velocidade durante a noite escura. Mas mesmo assim, ele ainda consegue enxergar, lá ao longe, uma linha de luz no horizonte. Linda imagem para se guardar na mente como uma metáfora do grande sonho do “capitão” Lincoln.

* Alexandre Alexeieff foi um animador, cineasta, criador – junto com sua esposa Claire Parker – da técnica do “écran d’épingles” (tela de alfinetes): um dispositivo para realizar filmes de animação em que uma luz é projetada sobre uma tela branca, onde alfinetes de aço são enfiados e movidos para dentro e para fora, criando, assim sombras que compõem formas diversas. (Veja os curtas Une Nuit sur le Mont Chauve (1933) ou o prólogo do filme de Orson Welles, O Processo, de 1962).

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Django Livre (2012)
publicado em 8/2/13

Título original: Django Unchained
Origem: EUA
Diretor: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Com: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson

Irônico, inteligente, burlesco, pop, ousado, insano, o último filme do grande Tarantino é uma divertida homenagem ao gênero western, ao mesmo tempo em que propõe uma séria reflexão sobre o terror da escravidão!

Três anos depois de ter triunfado com Bastardos Inglórios (2009) – que coloca o dedo na ferida alemã, contando, à sua maneira, a perseguição aos judeus na Segunda Guerra – Tarantino volta às telas com mais um filme sobre um dos grandes horrores da História da humanidade: a escravidão dos negros nos Estados Unidos da América.

Para tratar do tema (já mil vezes explorado), ele joga, no entanto, com sua liberdade artística (uma de suas marcas) e o mistura com outro horror da história norte-americana: o massacre dos índios na conquista do oeste americano. Nasce aí um western original, carregado de influências europeias (sobretudo o spaghetti italiano), em que a briga acontece entre brancos e negros, ao invés de brancos e índios, e o cowboy é um negro recém-alforriado, e não um John Wayne, branco e livre.

Mas a liberdade artística – ou brincadeira – de Tarantino não para por aí!

Interessante observar que Christoph Waltz – ator austríaco que deu show como o alemão nazista endemoniado – está presente também neste filme, mais uma vez arrebentando em sua atuação, agora na pele de Dr. King Shultz. Um mercenário, caçador de recompensas, disfarçado de dentista, que oferece ao escravo Django (Jamie Foxx) sua liberdade em troca de seus conhecimentos sobre alguns dos bandidos da região. O curioso é que, desta feita, ele não é o mauzão da história – embora mate por dinheiro (?!) – mas sim, aquele que vem de fora e que, com seu olhar estrangeiro, é capaz de enxergar e de apontar as barbaridades da situação ali estabelecida.

Os dois vão iniciar, então, uma boa parceria e uma bela amizade regada a diálogos interessantes, divertidos e inteligentes, no melhor estilo Tarantino.

Igualmente interessante é perceber que Tarantino vai buscar em uma lenda alemã o “fil rouge” de sua história, em que o herói Siegfried corre em socorro de sua amada Brunhilde, presa em uma montanha rodeada de fogo e de dragões, como conta Dr. Schultz a Django numa bela cena noturna. No caso aqui, Django seria Siegfried, cujo único objetivo é libertar sua amada esposa, a bela Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), escrava da Casa Grande, que foi ensinada por sua antiga dona a falar alemão, e que vive hoje presa em Candieland, nas mãos do perverso dragão Monsieur Candie (fantástico Leonardo DiCaprio), grande proprietário de plantations.

Para contar esta história de roteiro aparentemente simples (herói que quer salvar sua amada das mãos de bandidos), Tarantino vai se valer de seu repertório de cinéfilo e de cineasta, indo buscar referências em vários grandes diretores do western mundial, tais como Sergio Leone, William Witney ou ainda John Ford… Embora ele próprio tenha declarado não apreciar o trabalho de um homem que atuou como membro da Ku Klux Kan em O Nascimento de Uma Nação (1915) – filme extremamente racista, de Griffith – e que passou sua vida, segundo ele, fazendo filmes que ressaltavam a superioridade do homem branco sobre os índios. Mas que o plano de Django e Dr. Shultz de costas, montados nos cavalos, ao pôr do sol, em que só vemos suas silhuetas, ou, ainda, a cena do cemitério, também ao cair da noite, são de uma estética bem fordianna. Ah, isso são! Talvez um ato falho que Freud possa explicar…

Na verdade, desde a abertura – bem ao estilo dos westerns spaghettis dos anos 60 – até a trilha sonora do filme – uma miscelânea pop, com músicas que vão desde o country, passando pelo soul, hip hop até o rap contemporâneo escrito pelo ator principal Jamie Foxx – percebe-se que Tarantino aproveitou-se dessa sua última cria para se soltar e se divertir um bocado, usando e abusando da sátira para passar seus recados.

A sequência dos homens brancos encapuzados que, antes de partirem para destruir Django, param para discutir sobre a utilidade de seus capuzes é um exemplo disto. Absolutamente hilária, ela tem tudo para se tornar uma pérola do cinema!

E, se pensarmos bem, talvez seja justamente essa grande liberdade, essa ausência de medo de ser bobo ou infantil, esse prazer da brincadeira e essa maneira simples de passar sua mensagem que façam de Tarantino o gênio que ele é. E de seus filmes, filmes tão bons de assistir. Mesmo que durem 2h45min que nem sentimos passar…

Django Livre é um filme divertido sobre um assunto sério!

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Amor (2012)
publicado em 21/01/13

Título original: Amour
Origem: França / Alemanha / Áustria
Diretor: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Com: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Hupert

O ganhador da Palma de Ouro em Cannes 2012 e do recente Globo de Ouro (na categoria melhor filme estrangeiro) é absolutamente sublime!

Sublime, no melhor sentido kantiano do termo, já que nos coloca diante da beleza e da feiura de envelhecer ao lado de quem se ama, despertando-nos, ao mesmo tempo, o medo e o encantamento!

Encantamento, ao vermos o respeito, a solidariedade, o companheirismo e o amor de um homem e de uma mulher que já viveram tanto tempo e tantas coisas juntos. Medo, ao vermos a deterioração de seus corpos e de suas mentes. Medo, ao percebermos sua consciente impotência diante da situação vivida. E mais medo ainda ao nos projetarmos neste cenário que pode ser nosso futuro próximo ou distante. Ou ainda o presente de alguém que nos é bem próximo.

Amour já começa por uma sequência que é um choque, com policiais invadindo um apartamento que exala um odor forte e desagradável, para lá descobrirem um corpo já deteriorado de mulher sobre a cama, contornado de flores.

Dali, em um longo flash-back o filme vai, então, contar a história de Anne (Emmanuelle Riva) e de George (Jean-Louis Trintignant) um casal de músicos aposentados, na casa dos 80, que vive lentamente seu dia-a-dia, numa relação não-perfeita (como a vida é) de companheirismo e de respeito. Os dois artistas, aliás, dão um show de interpretação! Riva, aos 85 anos, concorre ao Oscar 2013 de melhor atriz é a candidata mais velha a ser indicada ao prêmio!

Vale ressaltar, aqui, a forma original como o diretor nos apresenta aos protagonistas. Depois da sequência do início, vemos, em plano fixo, um grupo de espectadores – assim como nós – sentados em cadeiras de teatro.  É como se houvesse um espelho bem à nossa frente. Talvez um alerta para que entendamos que esta história pode ser a de qualquer um de nós. A cena é longa o suficiente para podermos observar atentamente várias daquelas pessoas ali sentadas. Umas tossem, outras se mexem, algumas cochicham, até que, numa espécie de “Onde está Wally”, descobrimos Anne e George. E, então, mais uma surpresa: o espetáculo começa e… Melhor não contar o resto!

Tudo segue, assim, mais ou menos como manda a cartilha, com cenas dos cafés e almoços do casal, do cuidado com a troca dos sapatos ao entrar em casa, das noites dormidas e mal dormidas um ao lado do outro,  até o infeliz dia em que Anne sofre um AVC. Momento importante do filme marcado por uma sequência de carga emocional forte. Dali, Anne será submetida a uma cirurgia não muito bem sucedida, que a deixará com metade do corpo paralisado. George resolve, então, sozinho se ocupar de sua companheira de toda a vida, e ela lhe faz prometer-lhe nunca mais leva-la de volta a um hospital.

A partir daí vamos vendo aquele ambiente de companheirismo e de respeito do início ir, pouco a pouco, se tornando mais pesado e mais difícil de continuar a suportar. Anne sofre por saber que seu caminho é uma ladeira sem fim. Ela se angustia, se revolta, pede a morte. George sofre por sua impotência diante do sofrimento da mulher. Ele tenta fazer tudo que está a seu alcance. Empenha-se de corpo e alma, e é de uma dedicação e de uma fidelidade absurdas. Mas ele cansa, ele perde a paciência às vezes, ele se mostra forte e fraco. Bom e mau. Ele é “um monstro gentil”, como Anne mesmo o define. Ele é humano. E nós, espectadores, sofremos junto com eles, acompanhando cada detalhe nada esplendoroso de seu dia-a-dia. Viver se torna um fardo imenso! E um fardo compartilhado!

Michael Haneke – que já havia ganhado a Palma de Ouro em 2009 por Fita Branca – é um diretor que certamente não gosta de esconder sentimentos nem sofrimentos. Ele, ao contrário, parece gostar de tocar na ferida, de colocar o espectador cara a cara com a realidade nua e crua, mostrando seu lado feio sem receio de agredir a quem quer que seja. Aqui e ali, no entanto, ele parece sentir piedade dos espectadores e presenteia-nos, então, com imagens de grande humanismo, o que nos permite tomar fôlego e prosseguir.

O filme – que conta a história de dois músicos – paradoxalmente quase não tem música. Apenas na hora do concerto ou quando ouvem um ex-aluno tocar piano ao vivo ou em seu CD recém-gravado. Os ruídos são sua verdadeira trilha sonora. A respiração é de importância vital no filme (como na vida, claro!). Assim como a água que corre na pia na hora em que Anne tem sua primeira crise e que também é sinônimo de vida e de tempo que passa.

Apesar de o filme se passar quase todo dentro do apartamento do casal e de ter um ritmo bem lento, Amour não nos cansa, não nos sufoca, não nos oprime. Ele nos faz chorar, por certo. Mas ele também nos faz sorrir, ele nos faz sonhar e nos faz querer viver um amor assim tão grande, capaz de se doar por inteiro, sem perder, no entanto, sua individualidade.

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As Aventuras de Pi (2012)
publicado em 15/1/13

Título original: Life of Pi
Origem: EUA / China / Taiwan
Diretor: Ang Lee
Roteiro: David Magee, Yann Martel
Com: Suraj Sharma, Irrfan Kan, Adil Hussain, Tabu, Gérard Depardieu, Rafe Spall

E o 3D é sim capaz de poesia!!!!

O último filme de Ang Lee – premiado diretor taiwanês, ganhador do Oscar de melhor diretor por O Segredo de Brokback Mountain (2005) – prova isso!

Trata-se de um filme-poema, verdadeiro bálsamo para os olhos, mente e coração!

Fortíssimo candidato nas disputas do Oscar, Golden Globes e Bafta, As Aventuras de Pi não é um filme para se levar ao pé da letra. Mas, muito mais do que isso, é um filme para se deixar levar, embalar, encantar, viajar, sonhar… Uma história que nos faz acreditar no inacreditável!

As Aventuras de Pi – uma aventura filosófica – é tipo de filme que não termina quando deixamos a sala de cinema. Ao contrário, ele se prolonga em nossas mentes e em nossos espíritos, fazendo-nos ficar horas pensando, refletindo e decifrando seus inúmeros símbolos e mensagens implícitas. Ou simplesmente, deliciando-nos com tamanha poesia!

Pelo menos, foi essa a impressão que ele causou em mim. Saí do cinema com a cabeça nas nuvens, sem querer ver mais nada que pudesse apagar aquelas imagens tão belas e cheias de encanto que ficaram impressas em minha mente! Isso porque Ang Lee soube, como ninguém, fazer valer-se da tecnologia digital e da 3D, para trazer à tona o mais belo do mundo tecnológico. Acho que, desta vez, até os cinéfilos mais ortodoxos, que sofrem com o fim da era analógica vão ter que dar a mão à palmatória e, entender que, 35mm, 70mm ou digital, o que realmente conta é o talento de quem está por detrás das câmeras!

O filme é baseado no livro Life of Pi, do escritor hispano-canadense Yann Martel, publicado em 2001 e ganhador do Man Booker Prize 2002. Acusado de ter plagiado o livro Max e os Felinos do autor brasileiro Moacyr Scliar, Martel negou tal acusação, afirmando ter lido apenas uma resenha sobre o livro do brasileiro antes de escrever a sua obra. O livro de Scliar, publicado em 1981, conta, porém, a história de um menino judeu que atravessa o Atlântico em companhia de um jaguar.

Coincidência ou plágio, a versão de Martel, adaptada por Ang Lee à telona, conta a história de um menino hindu que atravessa o Pacífico em companhia de um tigre de Bengala. Trata-se de Pi, ou Piscine Molitor Patel, um jovem indiano, nascido e criado no zoológico de Pondichérry, em meio a animais de todos os tipos e uma família bem instruída e não conservadora. Um menino curioso que tinha como hobby colecionar religiões (hindu, cristã, mulçumana, etc)

Seu pai, ao ver a situação de seu negócio degringolar, toma a decisão de imigrar para o Canadá levando consigo, de navio, sua família e todos os animais do zoo a fim de vende-los e começar uma nova vida no Novo Continente.

E começa assim a maior aventura de Pi.

Durante uma grande tempestade no Pacífico, o navio afunda e Pi se vê sozinho em um bote salva-vidas com quatro dos animais do zoológico: uma hiena malvada, uma orangotango maternal, uma zebra indefesa e ele – o mais bravo dos bravos, o mais temido dos temidos, o tigre de Bengala de nome Richard Parker.

Na luta pela sobrevivência e pela sanidade mental, sobram apenas Pi e Richard Parker. Duas feras que vão enfrentar grandes desafios e provações (carnais e espirituais) a fim de continuarem vivos.

Ah, como gostaria de poder falar mais… Há tanto o que ser dito! Tanto o que ser discutido, analisado, avaliado. Adoraria poder escrever aqui todos os meus sentimentos, minhas sensações e interpretações sobre este filme tão encantador. Mas não posso. Tenho certeza de que se fizer isto, estragarei o barato de vocês!

O que posso afirmar, porém, é que, esteticamente falando, o filme é uma pérola rara com planos minimalistas de uma beleza estonteante. Planos em que céu e mar se confundem, se misturam, se completam, num reflexo infinito. Assim como o fazem o terreno e o divino nesta obra. Cenas em que o nado se confunde com o voo e em que perdemos totalmente a referência e a noção do espaço. Planos etéreos, com luzes fosforescentes e uma luminosidade do além, possível apenas em um mundo de sonhos. Cenas em que cores vivas são substituídas pelo preto e branco em função da gravidade do momento… Sem falar nas transições magníficas entre as sequências, com sobreposições impressionistas feitas com o que há de melhor na tecnologia deste nosso século. Absolutamente irretocável!

Fora o esplendor estético, cabe também dizer que As Aventuras de Pi é um filme que sabe dosar bem filosofia, poesia, humor, aventura, tecnologia, religião, tradição e modernidade, sem nunca perder o equilíbrio nem o bom ritmo. A música, assinada por Mychael Dana contribui para isso, sem dúvida, sendo discreta, delicada ou super presente na hora certa!

Por fim (já que urge parar de escrever…), As Aventuras de Pi trata sobretudo de fé, de autoconhecimento e da briga interna entre o animal selvagem e o homem que habita em cada um de nós. Um filme que nos faz pensar nas várias formas de se contar uma mesma história, sem, no entanto, alterar sua essência. Que importa se mudam as fantasias, as cores, os nomes ou até os personagens? O que conta é a essência. É ela que não pode mudar. E a nós, cabe acreditar naquela versão que nos parece a mais interessante ou atraente.

Está aí um forte candidato aos maiores prêmios do cinema mundial, e certamente, um título para acrescentar à lista dos Top 10 2012.

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O IMPOSSÍVEL (2012)
publicado em 6/1/13

Título original: Lo Imposible
Origem: Espanha
Diretor: Juan Antonio Bayona
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Com: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland

Um tsunami de lágrimas… foi esse o efeito que o último filme de Juan Antonio Bayona teve sobre mim!

O Impossível conta o pesadelo real vivido pela família espanhola Alvarez-Belón, atingida pela onda gigante de 2004, quando passavam Natal na Tailândia, sua sobrevivência e seu périplo pelos escombros a fim de se reencontrarem.

Adaptado à língua, aos traços étnicos e à cultura cinematográfica anglo-saxônica, o filme do diretor espanhol de O Orfanato (2007) – excelente, por sinal – nos mostra, pelos olhos dos sobreviventes, um dos maiores desastres naturais de nosso tempo. Assim como já havia feito brevemente Clint Eastwood em seu Além da Vida (2010), com Marie (Cécile De France), jornalista também sobrevivente do tsunami da Tailândia.

Mas, diferentemente da produção de Eastwood, o filme de Bayona é 95% angústia e tensão. Já nas primeiras cenas de O Impossível, quando a família ainda está sentada no avião rumo às suas férias de Natal, a tensão toma conta do ambiente, nos preparando para o que ainda está por vir. Cada turbulência é sentida com ansiedade pelos personagens e por nós, espectadores, graças a um trabalho de som minucioso, assinado por Fernando Velázquez.

Em seguida, o filme nos transporta para um universo paradisíaco, com direito a hotel cinco estrelas, praias de areias branquíssimas e água transparente. Um sonho que permeia a mente de quase todos nós, reles mortais. Por alguns poucos minutos nos damos ao luxo de respirar tranquilamente, mesmo sabendo que a catástrofe é iminente (vide as cenas subaquáticas que remetem à Tubarão, 1975). As cenas da “calmaria” são lindas! Mas, aproveitem, pois elas duram pouco.

Logo em seguida seremos levados com força para dentro das águas salgadas do mar. Seremos tragados pelo gigantismo desta onda e da superprodução de Bayona. Sentir-nos-emos em um filme-catástrofe de Spielberg ou de James Cameron. Entraremos no corpo da bela Naomi Watts, interpretando Maria, mãe de três meninos (e também a mãe que habita cada uma de nós), e veremos ou não veremos o mundo acabando bem à nossa frente, via uma super presente câmera subjetiva. A água invadindo todos nossos poros, nossos pulmões e nossas almas, para, depois de uma batalha frenética, finalmente conseguirmos voltar a respirar. Ufa! Mas depois do ar entrando novamente nos pulmões e um certo alívio percorrendo o corpo, vem o desespero, a consciência: onde estão os outros? Onde estão meus filhos, meu marido?

Emoções à flor da pele, excelentemente interpretadas por Watts, que atua no limite do real, sem exageros, sem cair no melodrama barato. Com a força, com a vulnerabilidade e com a coragem de uma verdadeira sobrevivente.

Destaque também para a atuação do jovem Tom Holland, no papel de Lucas, o primogênito da família Bernet que comanda boa parte das ações pós-catástrofe. Interessante observar a troca de papéis que ocorre pós-tsunami, quando o filho tem que assumir o cuidado com a mãe, resistente ao se descobrir na pele da protegida e não mais da protetora.

A outra parte da família parece ter menos peso no roteiro de Sergio G. Sánchez, ocupando um tempo menor no desenrolar da trama filme (pelo menos foi essa a impressão que tive). Enquanto mãe e primogênito agonizam com seus ferimentos e tentam sobreviver a um hospital abarrotado e sem infraestrutura para tantos feridos, o pai Henry (Ewan McGregor) e os dois filhos menores, sem sinais de grandes ferimentos, seguem em busca do restante da família. Ewan McGregor está bem no papel do pai desesperado, mas deixa o show por conta de Naomi Watts.

Diferentemente do tom fantástico e surrealista de O Orfanato, que, aliás, caracterizam boa parte do cinema espanhol contemporâneo, O Impossível não explora o místico, o além-vida, as forças ocultas, a magia, etc. Tampouco o diretor recorre a metáforas ou alegorias para reproduzir a tragédia. Ele é direto, realista, seco. Sem nunca ser frio. Ao contrário. O filme é sentimental até o fim. Talvez apelando um pouco mais do que devia para as nossas glândulas lacrimais…

Impressionou-me, no entanto, ver que Bayona não aproveitou sua superprodução para exaltar seu povo e seu país, que vivem hoje uma real tsunami econômica. Talvez tivesse sido uma boa oportunidade de mostrar para o mundo a força e a capacidade de sobrevivência desse povo que enfrenta touros e tsunamis olhando-os de frente, olhos nos olhos.

Um filme PRA CHORAR. Não esqueçam o lenço!

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ANO NOVO
Publicado em 26/12/12

Caríssimos cinéfilos ou esporádicos amantes da sétima arte,

Em 28 de dezembro de 1895, quando os Irmãos Lumière projetaram pela primeira vez, em Paris, um conjunto de filmes para apresentar seu mais novo invento – o Cinematógrafo – eles deixaram o público ali presente extasiado! A novidade causou furor, espalhando um misto de medo e de deslumbramento nos espectadores. Ao assistirem o Chegada de um Trem à Estação (L’Arrivée d’un Train à la Ciotat), alguns chegaram mesmo a pensar que o trem iria atravessar a tela e atropelar todo mundo naquela sala. Era a realidade que chegava ao público por meio daquele novo dispositivo de visão.

Poucos anos depois, um certo Georges Méliès – ilusionista convertido em cineasta – trouxe àquela nova arte (ainda não reconhecida como tal) um novo ingrediente: a magia! Que no cinema recebeu o nome-fantasia de “trucagem”. Assim, o mágico-sonhador nos ensinou que, mais do que reprodutor de realidade, o cinema era também um “criador de realidades”. Uma máquina capaz de criar novas vidas, novos mundos, novos sonhos! Seu Viagem à Lua (1902) é a prova disso!

Do cinematógrafo pra cá, muita coisa mudou: de mudo, o filme passou a ser falado; de preto e branco, colorido; de 2 D, 3D; das grandes telas que ocupavam belos teatros, hoje vemos micro telas de ipods, iphones, ipads e companhia se espalharem como um vírus por mãos de todas as nacionalidades. Sem falar na famosa película de 35mm que está deixando pouco a pouco de existir.

É, meus amigos, estamos, sim, em plena era digital, em que quase tudo é abstrato, virtual, simulacro… O próprio filme, como conhecemos, já não pode mais ser tocado, acompanhado em seu caminho por dentro da máquina de projeção até o vermos, por meio da luz, transformar-se em imagem projetada. Isso já era. Os filmes tampouco são hoje enviados para as salas de cinemas dentro daquelas charmosas latas de metal. Coisa do passado! Agora tudo vai via satélite, numa forma de “teletransporte” tão eficiente que deixaria os Jetsons morrendo de inveja!

Vivemos, pois, um momento de grande evolução na história do cinema. Um marco que será doravante estudado nos livros. E talvez, por isso mesmo, vivamos em uma época tão carregada de nostalgia. Tão desejosa de uma volta às origens… Haja visto o enorme sucesso que filmes como O Artista (2011) e Hugo Cabret (2011) fizeram no ano que vamos deixamos para trás.

Estamos em plena transição! Em um momento em que a forma de ver e de fazer cinema está mudando em todo o mundo. Somos parte desta mudança! E isso, certamente, causa medo e desconfiança por aí a fora. Muitos chegam mesmo a temer o fim do cinema, assim como aconteceu quando o som invadiu as telas ou quando a televisão foi inventada.

Esquecem-se os temerosos, no entanto, de que aquela especificidade do cinema – identificada ainda no começo do século XX por Georges Méliès -, aquela capacidade que tem o cinema de nos transportar para um outro mundo, de nos fazer viver uma outra vida, respirar outros ares, viajar sem nunca sair do lugar, essa nunca verá seu fim. Pois ela é a essência e a alma da hoje consolidada sétima arte!

Podem mudar tecnologias, inventar o equipamento que quiseram inventar, mas uma coisa nunca vai mudar: cinema é, e sempre será, uma máquina de criar fantasias, sonhos e ilusões.

Que em 2013 cada um de vocês continue a se deixar viajar por esta máquina tão especial que faz sonhos virarem realidade e realidades virarem sonho.

Feliz Ano Novo e Bons Filmes!

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A Filha do Pai (2011)
publicado em 21/12/12

Título original: La Fille du Puisatier
Origem: França
Diretor: Daniel Auteuil
Roteiro: Daniel Auteuil (da obra original de Marcel Pagnol)
Com: Daniel Auteuil, Sabine Azéma, Kad Merad, Astrid Berges-Frisbey, Nicolas Duvauchelle

Singelo, puro, bucólico e belo!

O filme de estreia de Daniel Auteuil como diretor é banhado de sol, de uma luz tão intensa que faz lembrar aquela luz que tanto procuravam os pintores impressionistas. A sequência inicial, aliás, parece saída de uma exposição expressionista, com quadros de paisagens ensolaradas, com a linha do horizonte ocupando o alto da tela. Um verdadeiro colírio para os olhos!

Trata-se na verdade de um remake do filme de Marcel Pagnol*, lançado em 1940 e estrelado por Raimu, no papel do pai / puisatier, e pelo grande ator cômico francês Fernandel (na versão atual, substituído por Kad Merad).

O filme conta a história de Patricia (Astrid Berges-Frisbey) – uma jovem que acaba de completar seus 18 anos, filha de Pascal Amoretti (interpretado divinamente pelo próprio Daniel Auteuil), um simples puisatier (um cavador / desentupidor de poços) – e de sua paixão arrebatadora por Jacques (Nicolas Duvauchelle), piloto, filho de um homem abastado, comerciante e proprietário de terras. Um relacionamento fadado ao fracasso em função da diferença social entre os dois amantes.

Patricia, que é uma moça muito trabalhadora e honesta, se encanta e se deixa seduzir pelo jovem piloto, engravidando logo no segundo encontro. Um verdadeiro escândalo para a época e para um vilarejo da Provence francesa. E, para piorar a situação, antes mesmo do terceiro encontro do casal, Jacques é subitamente enviado para a guerra, sem que consiga nem se despedir da moça.

A partir deste mote o filme vai, então, desenvolver-se, com um bom equilíbrio de humor e drama, colocando em jogo as tradições, os costumes locais, as diferenças sociais e, sobretudo, os sentimentos verdadeiros de pessoas bem diferentes.

De um modo geral, a mise-en-scène é simples, assim como são o próprio enredo e as soluções encontradas para a trama. Há, porém, muitas elipses que permitem acompanharmos o desdobrar de toda a história, mas que, por vezes, parecem um pouco bruscas demais, dando-nos a impressão de um certo problema de continuidade. Mas nada que atrapalhe a compreensão dos acontecimentos. Imagino que isso se deva, sobretudo, à tentativa de Auteuil de se manter fiel à obra de Pagnol e, portanto, à estética e “aos costumes” dos filmes da época.

A trilha sonora, assinada por Alexandre Desplat, é magnífica e casa muito bem com as imagens do filme. As músicas são de uma luminosidade, de uma intensidade e de uma poesia dignas da Provence e dos quadros impressionistas!

A Filha do Pai é um presente para os olhos e para os ouvidos!

* Para quem se interessar, o filme original pode ser visto na íntegra pelo Youtube.

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007: Operação Skyfall (2012)
publicado em 7/12/12

Título original: Skyfall
Origem: EUA
Diretor: Sam Mendes
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade
Com:  Daniel Craig, Javier Bardem, Naomie Harris, Judi Dench, Ralph Fiennes

Skyfall é uma volta às origens, um resgate do passado e da essência do espião mais famoso do planeta: James Bond.

Passado é, aliás, o grande leitmotif deste último filme de 007, embalado pela música Skyfall de Adele.

Sam Mendes, mais acostumados a temas psicológicos do que aventureiros (vide seus excelentes Beleza Americana (1999) e Foi Apenas um Sonho (2008)), conseguiu trazer para o 007 de 2012 um toque de drama psicológico e de sentimentalismo que só enriqueceu a história de Bond, mais uma vez interpretado por Daniel Craig, que, aliás, está melhor do que nunca. (Parece que ele finalmente se encontrou no papel do espião!) Um excelente presente para esta “edição de aniversário”, em que se comemora os 50 anos de criação do personagem por Ian Flemming.

Mas, calma, fãs de Bond! Não se desesperem. Nem por isso o filme caiu na armadilha do pieguismo ou do melodrama! Seu menu principal ainda é a ação, muita ação! Sem falar nas jovens mulheres bonitas, sempre presentes e nos cenários magníficos, que incluem agora a Turquia e a China.

Desta vez, no entanto, elas – as moças – ocupam menos espaço na trama, cedendo lugar a uma não menos bonita, mas bem mais madura M., interpretada novamente por Judi Dench. Mais mãe do que chefe nesta versão.

O inimigo, fantasticamente interpretado por Javier Bardem, ocupa também todos os espaços quando aparece. De cabelos louros e visual nada glamoroso, Bardem está divino na pele do cheio de charme “Silva”. Uma figura do passado de M-16 que volta à tona, depois de haver decidido cortar o cordão umbilical anos antes.

Skyfall é assim uma grande reflexão sobre a passagem do tempo, sendo o filme todo permeado pelo contraste do novo e do velho, do passado e do presente, da tecnologia e da sabedoria, da máquina e do homem.

Isso vale inclusive para a trilha sonora do filme, em que o antigo e o novo se encontram, em que a tradição se mistura ao contemporâneo. Adele, cantora inglesa de grande destaque na atualidade, representa o novo, com sua música já sendo tocada no início do filme.  Após um prólogo de tirar o fôlego, em que Bond persegue o inimigo pelos telhados do Grand Bazar em Istambul, pela Mesquita de Santa Sophia e em cima de um trem, a música de Adele nos faz respirar, subir, descer, voar e cair, junto com Bond. Tudo isso enquanto assistimos ao “clip” de abertura, já tradição dos filmes de Bond.

Mas, não se enganem, a boa, antiga e clássica música-tema de 007 também é tocada em várias partes do filme, sobretudo nas cenas de aventura. Fantástica a paleta musical organizada por Thomas Newman, que dá show à frente da trilha sonora deste último episódio.

Skyfall é, assim, um filme-homenagem à vida deste personagem que vem há 50 anos arrebatando os corações e os olhos de milhões de espectadores no mundo inteiro. Um filme PRA SE DISTRAIR que deve agradar a jovens e maduros. Aos antigos e aos novos fãs de Bond.

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ARGO
publicado em 21/11/12

Título original: Argo
Origem: EUA
Diretor: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio, Joshuah Bearman
Com: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin

Filmão!!!! Daqueles que há tempos não via! Do tipo que te faz grudar os olhos na tela durante duas horas e pouco, te faz prender a respiração em vários momentos, apertando o  braço da cadeira ou o da pessoa ao lado. Uma verdadeira aula de cinema!

Baseado em uma história real e emocionante, acontecida no finalzinho dos anos 1970, Argo conta o passo-a-passo de um resgate de seis diplomatas americanos escondidos em solo iraniano, feito pela CIA (Central Intelligence Agency) e executado por Tony Mendes – um especialista em exfiltrações – interpretado pelo também diretor Ben Affleck.

Optando por uma estética vintage, de imagens granuladas, Affleck resolveu não só nos contar uma história passada nos anos 70, mas quis (e conseguiu) nos levar de volta ao fim da década de 1970.

Desde a abertura do filme, quando a logo da Warner Bros surge à nossa frente, já temos a impressão de termos voltado no tempo… A imagem não parece tão nítida para nossos olhos de século 21,  já tão acostumados a ver a vida em alta definição. Chegamos até a sentir um certo desconforto ou estranhamento. Em seguida vem uma sequência de abertura em formato de storyboard + fotos de arquivos, acompanhada de narração didática, resumindo a história do Irã e situando-nos no contexto tenso da história que nos vai ser contada

Teerã, novembro de 1979. A Embaixada Americana é invadida pelos militantes islamitas que reclamavam a volta de seu líder, exilado nos EUA. Eles o queriam de volta para que ele fosse morto em sua terra natal, lugar onde ele próprio havia matado tanta gente.

Durante a invasão, um grupo de seis diplomatas resolve fugir da Embaixada, encontrando abrigo na residência do Embaixador canadense. Lá eles ficam escondidos, presos e isolados, sem o conhecimento dos islamitas iranianos. Os outros diplomatas americanos são feitos reféns e ficam presos dentro da Embaixada.

A CIA resolve agir e enviar, então, um de seus agentes com o intuito de resgatar as seis ovelhas desgarradas de seu rebanho. Acontece que os americanos estavam pra lá de visados no Irã. Seria simplesmente impossível passar pelo controle de imigração. Várias possibilidades são pensadas. Mas a “pior melhor ideia” é justamente a de Tony Mendes que, inspirado pelo filme A Batalha do Planeta dos Macacos (1973), propõe trazer os seis diplomatas como se eles fossem parte de uma equipe canadense de produção de um filme de ficção científica. Eles estariam lá fazendo as pesquisas de campo, para ver se Teerã seria de fato uma boa locação para sua nova produção.

No entanto, para que  a coisa toda convencesse, era preciso que existisse de fato um filme em produção, com tudo o que se tem direito. Roteiro de verdade, equipe de produção de verdade, lançamento, etc. O roteiro escolhido foi Argo. O produtor, Lester Siegel (Alan Arkin). E o maquiador, John Chambers (John Goodman), ganhador de um Oscar pelo seu excelente trabalho nos 5 filmes do Planeta dos Macacos.

A história acontece, portanto, em três locais simultaneamente: Hollywood, local de falsa produção do filme; Washington, sede da Cia, e local de onde os comandos são dados; e Teerã, onde a invasão e a tentativa de resgate acontecem. Cada uma das partes tem, por sua vez, características diferentes, que ajudam a delimitar bem os acontecimentos, complementando-os e os enriquecendo.

A parte de Hollywood é a responsável por trazer um pouco de leveza e humor ao filme. A de Washington traz o suspense gerado pela burocracia e pelos entraves políticos, como nos bons filmes de espionagem. Teerã é o drama, a tragédia. Imagens desfocadas, com movimentos imprecisos, grandes zooms nos personagens, mostrando-nos suas caras e seus sofrimentos. Tudo isso alinhavado por uma trilha brilhante e por uma atuação super realista por parte de todos os atores.

O mais interessante é que, para este seu terceiro longa-metragem, Affleck não foi buscar na tecnologia seu grande trunfo. A grande sacada de Argo é, na verdade, sua montagem. Um trabalho de grande precisão e cuidado, que nos faz colar na cadeira de tensão, ansiedade, angústia, esperando o próximo passo de Tony Mendes. Esperando que a próxima cena traga uma solução, um alívio para nossas almas aflitas. Uma grande aula de “montagem paralela”, recurso introduzido por  Edwin S. Porter, já em 1903, com seu marcante O Grande Roubo do Trem.

Um bom exemplo dessa excelência na montagem é a cena de leitura do roteiro, alternada com invasão da Embaixada. Absolutamente fantástica!

Perseguindo ainda seu objetivo de tornar aquela história plausível – possível de ser encarada como “história real”, já que o é – Affleck explorou bastante a câmera subjetiva selvagem, em que os olhos da câmera são também os nossos olhos. Nós, espectadores, estamos lá! Estamos no meio daquela multidão, somos parte do filme! Sentimo-nos parte daquela história! Somos também personagens e, por isso, sofremos. Por isso, suamos!

A fim de conseguir esse efeito na cena da invasão da Embaixada, ao mesmo tempo que plantou sua 35mm no alto de uma grua, Affleck distribuiu câmeras Super 8 para alguns figurantes e deixou que filmassem à vontade. E foram essas as imagens escolhidas! Nada de imagem digital de alta definição, nada de imagem certinha, bem enquadrada, profissional. O que ele nos deu foi trechos de realidade!

Argo é assim um filme sobre um acontecimento dos anos 70, feito aos moldes dos anos 70, à base de suor e talento. E por isso ele parece tão real! Por isso ele é tão bom!

Sem dúvida, um forte candidato ao Oscar de melhor filme.  Imperdível!

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Intocáveis (2011)
Publicado em 11/11/12

Título original : Intouchables
Origem : França
Diretor : Eric Toledano e Olivier Nakache
Com : François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny

Um filme leve, divertido, emocionante… feliz !

Tudo bem, talvez não estejamos diante de nenhuma obra-prima do cinema recente (apesar do enorme sucesso de bilheteria em solo francês). No entanto, Intocáveis, além de ser uma delícia de se assistir, é , sem dúvida, um filme que “toca”!

O enredo do filme – escolhido para representar a França na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – é aparentemente “batido” e um tanto quanto maniqueísta, mesmo que inspirado em uma história real: homem branco, rico (muito rico!), culto, tetraplégico, contrata homem negro, pobre, sem instrução e em plena forma física para ajuda-lo em seu dia-a-dia.

A grande novidade desta história é, porém, a leveza com que é contada. Ao invés de um dramalhão – o que seria mais comum para o tema – o caminho escolhido pelos diretores Eric Toledano e Olivier Nakache foi o da comédia, o do bom-humor. E, diga-se de passagem, uma senhora comédia, na dose certa: sem exageros, sem piadas de mau gosto, com diálogos bem escritos, divertidos, capazes de proporcionar aos espectadores duas horas de boas gargalhadas.

A deficiência de Philippe (François Cluzet) não é, em nenhum momento, dramatizada, explorada ou ampliada. Da mesma forma que a pobreza de Driss (Osmar Sy) não é tampouco apresentada como um fator gerador de um indivíduo amargurado, mau ou revoltado contra a burguesia. Nada disso! O filme definitivamente não caminha por estas trilhas, não apela para nossos sentimentos de compaixão, pena ou tristeza. Ao contrário. O que ele nos faz é abrir os olhos para enxergarmos a beleza que é viver, mesmo em condições um tanto quanto adversas. Praticamente uma versão francesa do nosso  “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”!

Vale dizer que François Cluzet dá um show de interpretação, nos transmitindo um punhado de emoções apenas por meio de suas expressões faciais. Um arraso que pode nos arrancar algumas lágrimas!

Intocáveis é um filme lindo, delicioso e que pode (e deve) ser visto por toda a família!

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E Se Vivêssemos Todos Juntos? (2011)
publicado em 06/11/12

Título original : Et Si On Vivait Tous Ensemble ?  
Origem : França / Alemanha
Diretor : Stéphane Robelin
Roteiro : Stéphane Robelin
Com : Géraldine Chaplin, Jane Fonda, Pierre Richard, Claude Rich, Guy Bedos, Daniel Brühl

Descomplicado, doce, delicado, divertido, encantador ! É assim o último filme de Stéphane Robelin.

Quando as chatices da idade começam a incomodar um grupo de amigos de longa data – tornando-os novamente dependentes dos cuidados de terceiros – Jean (Guy Bedos) lança uma ideia aparentemente maluca: e se eles fossem morar todos juntos, sob o mesmo teto, cuidando uns dos outros?

Com esse pano de fundo, E Se Vivêssemos Todos Juntos? nos expõe os problemas de uma sociedade que, vivendo cada vez mais tempo, envelhece sem saber como viver bem os últimos anos de vida.

Assim, por meio das vidas dos casais Jeanne (Jane Fonda) e Albert (Pierre Richard), Annie (Géraldine Chaplin) e Jean (Guy Bedos) e do fotógrafo solteirão Claude (Claude Rich), uma série de questões – tais como esquecimentos (ocasionados pelo mal de Alzheimer), diminuição de força física, a ausência dos filhos e netos,  solidão, sexualidade, perspectiva da morte iminente – vão pouco a pouco sendo levantadas e discutidas de maneira leve e divertida.

Sem grandes proezas estéticas, nem planos de tirar o fôlego, o filme é, porém, bonito, suave, encantador. Ele nos faz pensar sobre a velhice dos nossos e sobre a nossa própria, quer ela seja já uma realidade ou que esteja ainda alguns passos à nossa frente.

A trupe de atores “maduros” que compõe o filme já é responsável por nos oferecer um grande exemplo de como aproveitar bem a vida em sua terceira (quarta ou quinta) fase! Pierre Richard, ao interpretar um homem afetado pelo mal de Alzheimer dá um show! Jane Fonda, por sua vez, com seu francês impecável e sua beleza sem fim está um charme absoluto!

Agora que o filme chegou às telas brasileiras, recomendo-o a todos que gostam de ir ao cinema buscando diversão com uma certa dose de reflexão!

Vá preparado para boas gargalhadas, mas também para algumas lágrimas!

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Moonrise Kingdom (2012)
publicado em 06/11/12

Título original: Moonrise Kingdom
Origem: EUA
Diretor: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola
Com: Bruce Willis, Bill Murray, Edward Norton, Jared Gilman, Kara Hayward

Curioso, leve, divertido, caricato, ingênuo, belo… e encantadoramente original!

Original no roteiro, que conta uma história de amor entre dois pré-adolescentes rejeitados, Sam (Jared Gilman) e Susy (Kara Hayward), que, por se sentirem diferentes, deslocados, solitários e infelizes, decidem fugir de casa.

Original no cenário, bastante econômico, colorido, caricato, artificial.

Original no movimento de câmera, meio duro, meio mecânico, artificial, hora indo para o lado, em movimento horizontal, hora subindo verticalmente, como se pegasse um elevador ou como se seguisse a trilha do Pac-Man.

Original no jogo de cena artificial de seus atores.

Original ainda na escolha do narrador, um tipo de expert na geografia do lugar, vestido de duende, com jeitão de Wood Allen.

E maravilhoso na trilha sonora. A música Le Temps de l’Amour, da cantora francesa Françoise Hardy é divina e reflete com muito charme todo o espírito do filme. Encantadora!

Enfim, o filme que foi escolhido para abrir o 65° Festival de Cannes, é um conto quase-fantástico, que brinca o tempo todo com o real e com o artificial, com o possível e com o impossível. Uma história simples que se fantasia de surreal para tratar de questões sérias com a leveza de uma brincadeira de criança.

No seu “visual” tudo parece meio forçado, falso, caricato. Mas, no fundo, no fundo, no seu “não visual”, tudo é absolutamente sério e pra valer! A infelicidade dos dois pré-adolescentes – assim como a dos adultos que as cercam – está lá. E ela é tão real, legítima e profunda que nos atingem em cheio.

Moonrise Kingdoom mistura, assim, a ingenuidade e os sonhos da infância com as angústias e com a realidade da vida adulta, nos levando de volta a esta zona de turbulência que é a adolescência. A este meio-de-caminho rumo uma idealizada liberdade.

E assim, com o mais profundo respeito aos sentimentos da adolescência, Wes Anderson e Roman Coppola nos revelam os primeiros movimentos do amor de uma maneira inocente, bonita, divertida, delicada e séria. E acabam por nos fazerem enxergar que não devemos desprezar as infelicidades e as angústias de nossas crianças, pois elas são legítimas e reais, podendo ser ainda um reflexo da nossa própria infelicidade.

Super recomendado!

PS. Para os que apreciam a boa música instrumental, recomendo que não saiam da sala antes do final…

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Tropicália na Suíça
publicado em 24/10/2012

13h40. Olho a programação do Festival Visions du Réel de Nyon pela Internet. Assisto a uma entrevista com um diretor brasileiro – Marcelo Machado – acerca de seu documentário sobre o Tropicalismo. Ummmm, parece bem interessante! Pena que começa às 14h. Será que dá tempo? Começo rapidamente a fazer os cálculos: 10 minutos daqui até lá, mais 5 minutos pra estacionar, mais outros 5 pra comprar o ingresso e achar um lugar… Bem apertado, mas dentro de “condições normais de temperatura e pressão”, acho que dá. Agarro a bolsa, que está bem ao meu lado, desço a escada correndo, tranco a casa, entro no carro e voo, deixando para trás o computador aberto na página do Festival.

Chego a Nyon rapidinho, sem tráfego. Depois de dar umas duas rodadas no estacionamento, encontro enfim uma vaga, atravesso correndo a rua – na faixa, é claro, afinal de contas, estou na Suíça – entro no prédio, localizo o guichê pra comprar o ingresso, pergunto esbaforidametne à moça do caixa se ainda dá tempo. Ela me responde “Oui, madame”; o filme não havia nem começado. Ufa! Tento acalmar minha respiração ofegante, pego meu bilhete, caminho apressadamente rumo à sala, ignorando pipocas, balas ou refrigerantes. Pego um lugar logo na segunda fileira e, antes mesmo de conseguir me desvencilhar do casaco, as luzes se apagam. Parece que o filme esperava por mim!

Ainda com o coração batendo rápido dentro do meu peito, vejo a tela preta ganhar as cores verde e amarela. Ancine, Petrobrás, Bossa Nova Films… Todos nomes tão familiares mas também tão distantes. Transporto-me para o Brasil. Estou aqui e estou lá. Estou lá e estou aqui. O Brasil se abre a minha frente, me invade, me contamina. O espetáculo vai começar!

Filme: Tropicália (2012)
Origem: Brasil
Diretor: Marcelo Machado
Roteiro: Marcelo Machado, Di Moretti
Com: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Tom Zé, Hélio Oiticica, etc.

Mais do que um documentário, Tropicália é uma experiência sensorial, uma verdadeira viagem no tempo conduzida e embalada pelas vozes de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e tantos outros. Um filme que ultrapassa o limite do documentário para atingir o patamar de quase-poesia, tocando nossas almas lá no fundo.

Escrito com uma linguagem dinâmica de clip, misturando grafismos a imagens de arquivos, trechos de filmes  (como os do Glauber Rocha, por exemplo) e de entrevistas que exploram o campo e o contra-campo, Tropicália é fruto de um trabalho de pesquisa riquíssimo. Para se ter uma ideia, segundo Paula Concenza – uma de suas produtoras – algumas imagens que compõem o filme são inéditas até mesmo para os artistas que fizeram parte do próprio Tropicalismo.

Assim sendo, o filme de Marcelo Machado é, mais do que tudo, um reencontro.

Para os  brasileiros “da velha guarda”, um reencontro nostálgico com um momento tão marcante e importante da música e da política brasileiras – a política, no caso, sendo o pano de fundo para a grande protagonista “música”.

Para mim – e para tantos outros que estão longe – Tropicália é um reencontro com meu país, com minha cultura, com minha gente.

Para os mais jovens, talvez o mais certo fosse falar de um primeiro encontro, de uma apresentação, de um aprendizado feito por meio do encantamento!

Deixo-me então levar pela música alta e abundante no filme. Redescubro os Mutantes, com uma Rita Lee tão novinha, com seus cabelos longos e seu estilo tão original. Fico encantada com tamanha ousadia e talento daquela banda! E vou assim me encantando e me emocionando a cada nova música, a cada nova entrevista, até não conseguir mais conter as lágrimas, que começam a deslizar copiosamente pelo meu rosto, ao ritmo dolorido de Asa Branca, na voz e no violão de um exilado Caetano Veloso. Absolutamente sublime!

O filme então termina e a plateia aplaude. Meus olhos ainda marejados sorriem timidamente, como se fossem os responsáveis pela beleza daquela obra. Quase me levanto para agradecer! Sinto então uma vontade danada de gritar: Esse aí é o meu país! É minha música! É minha terra! É minha gente! Mas as luzes se acendem e me fazem colocar o pé de volta na realidade, guardando então dentro do meu peito todo o orgulho que carrego de ter nascido em um país com tantas cores e sons! Viva o Tropicalismo! Viva Marcelo Machado! Viva o talento brasileiro!

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Ruby Sparks: A Namorada Perfeita (2012)
publicado em 24/10/2012

Título original: Ruby Sparks
Origem: EUA
Diretor: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro: Zoe Kazan
Com: Paul Dano, Zoe Kazan, Annette Bening, Chris Messina

O filme da dupla (e casal na vida real) Jonathan Dayton e Valerie Faris – mesmos diretores do sensível e divertido Pequena Miss Sunshine (2006) – é excelente!

Banhado no impressionismo francês, com seus tantos maravilhosos planos subjetivos, sobreposições de imagens e sonhos em forma de realidade, Ruby Sparks agrada em cheio, já que agrega a tudo isso a objetividade e o humor norte-americanos.

Estrelado por um também casal na vida real – Paul Dano e Zoe Kazan, ele o ator que fez o irmão da pequena Miss Sunshine; e ela, escritora, neta do grande diretor Elia Kazan e ainda responsável pelo roteiro do filme – Ruby Sparks é aquele tipo de filme que diverte e encanta ao mesmo tempo. Ele é simples, direto, inteligente e cheio de magia.

O filme conta a história de um escritor prodígio, Calvin Weir-Fields (Paul Dano), que após ter publicado na adolescência um romance de estrondoso sucesso, passa agora por um período sem inspiração, ou de writer’s-block, como gostam de dizer os americanos. Fora isso, Calvin vive ainda um momento de deserto social, em que, tirando seu irmão Henry (Chris Messina), seu psicanalista e seu cachorro Scotty, o menino gênio – como não gosta de ser chamado – não se relaciona com ninguém. Ele parece traumatizado pelo rompimento de um relacionamento de 4 anos com a bela Lila (Deborah Ann Woll), logo após a morte de seu pai.

A vida de Calvin parece se encaminhar para um buraco sem fim, ele se enrolando cada vez mais em seu próprio umbigo e não conseguindo enxergar nenhuma solução viável para seu isolamento. Eis que seu psicanalista lança-lhe, então, um desafio: escrever uma página – uma única página – descrevendo o que seria para ele a mulher ideal, aquela por quem ele iria se perder de amor, alguém que pudesse ser sua companheira para vida.

Assim nasce Ruby (Zoe Kazan), uma menina longilínea de cabelos vermelhos, que se veste sempre com roupas coloridas e divertidas, contrastando com o mundo monocromático de Calvin.

O escritor-prodígio, inspirado por sua musa, entra, então, em uma fase positiva, escrevendo compulsivamente e sonhando a cada noite com sua Ruby idealizada. Seus sonhos são tão perfeitos e tão reais que ele se sente apaixonado verdadeiramente por sua personagem.

Tudo caminha de vento em popa até o dia em que objetos femininos de cores fortes começam a aparecer inexplicavelmente em seu apartamento branco. Primeiro, um soutien vermelho, depois uma calcinha violeta, creme para raspar pernas e, finalmente, Ruby! Sim, elazinha mesmo de carne e osso, em sua cozinha, preparando ovos para o café da manhã.

Será Ruby real ou fantasia? Loucura ou sonho realizado?

E vai ser, então, por essa via surrealista que o filme vai se enveredar, apoiando-se, sobretudo, em evidentes influências do impressionismo francês. A começar pelos inúmeros planos subjetivos e as imagens distorcidas que refletem a própria psiquê do personagem. Vide a primeira cena do filme, em que um vulto nos aparece em uma imagem banhada de uma luz laranja misteriosa e se dirige a nós, espectadores (e ao personagem principal), em leve plongée, até ir devagarinho ganhando foco.

Impressionistas também são as sobreposições de planos, como no caso da projeção dos sonhos no teto da sala do psicanalista, sequência em que vemos, ao mesmo tempo, as imagens do sonho de Calvin e a do aquecedor ou ar-condicionado do teto.

Sem falar na questão diretor-autor, tão defendida pelos impressionistas, em que o diretor do filme deve ser também o escritor, para que seja de fato o dono da história. Em Ruby Sparks, o personagem principal é escritor, autor e dono de sua própria história. Ele escreve, dirige, atua, decide. E, ironicamente, sua criação – a idealizada Ruby – é interpretada pela real escritora do roteiro do filme, Zoe Kazan.

E para completar a influência francesa, a trilha sonora do filme, assinada por Nick Urata, é repleta de canções em francês. De muito bom gosto, diga-se de passagem!

Ruby Sparks é, assim, um filme de perfeito equilíbrio, que mistura o clássico e o moderno, a intelectualidade francesa e a descontração americana, a máquina de escrever Olivetti e o computador Mac. Um filme capaz de nos fazer rir e de refletir ao mesmo tempo. Que nos faz pensar na nossa mania que querer mudar as pessoas ao nosso redor, achando que assim encontraremos a solução para nossos relacionamentos. Um filme que nos lembra que o ideal nem sempre é o melhor, pois ele pode simplesmente não existir. O melhor mesmo é vivermos a magia do amor, com todas as idiossincrasias que lhe são intrínsecas!

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Lilia

 

 

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alexandreinneccoLilia Lustosa